sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O olé do espanhol

O mapa dos oito mares

O capitão James Cara-de-touro abriu a porta com tamanha violência que uma dobradiça rompeu-se. Furioso, olhava para os lados à procura de qualquer coisa. Sonolentos marujos tentavam entender o que acontecia, outros permaneciam dormentes - ou fingindo dormência.

Do outro lado do convés, encontrou Andrew Reborn coçando o olho esquerdo com uma mão e a genitália com a outra, atordoado. Cara-de-touro não mais segurava o enorme livro dourado com pudores: jogou-o no peito do australiano, que caiu sem ar.

- Mas que porr...

- LEIA ESSA MERDA, DESGRAÇADO! DÊ-ME MOTIVO PARA NÃO JOGAR VOCÊ FORA!

Tentando recompor-se, Reborn respirou fundo e, a contragosto, abriu o mapa apoiado no chão. Via estrelas devido à pancada e mal se concentrava devido ao sono. Esforçou-se para discernir ao menos uma palavra e fracassou. Nunca lera algo como aquilo.

- Não sei que diabos é isso - disse, indiferente.

Bufando, o capitão tentava manter o mínimo de paciência.

- Não é possível que você não saiba!

- Não é latino, não é saxão, não é oriental. Nada. Nunca vi esses rabiscos.

- CADÊ O ESPANHOL? - berrou olhando em volta.

- Já falei que não é latino. Ele não saberá ler.

- Mas sei de alguém que saberá.

Guillermo González surgiu das sombras, de qualquer lugar. Calmo, sereno, sossegado. Cara-de-touro caminhou para ele a passos largos, espada na mão, apontando para a goela do espanhol.

- Conhece alguém que traduza aquilo? - murmurou, à beira da demência.

- E sei onde ele mora - a voz esganiçada pela pressão da lâmina, mas tranqüila.

- E por que devo acreditar em você?

- Porque ele mora na Espanha. Levo você à tradução do mapa, você me leva para casa.

Cara-de-touro mostrou-se satisfeito. - Então, conte-me, garotão, em que cidade o filho-da-puta mora?

- Vou lembrar mais depressa, garotão, se você abaixar a arma.

- E vai morrer depressa se não desembuchar a informação! - retrucou James, novamente agitado, sempre alterado.

- Que vai para o meu túmulo depressa se eu morrer.

O capitão afastou-se às gargalhadas, braços abertos, como se abraçasse a noite. Os olhos dele reviravam, saliva escorria da boca.

- Perfeito, espanhol, perfeito. Vamos a la España. E eu prometo que se for mentira, vou matá-lo como se mata touro em tourada!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Bopemóvel

Foi só eu que achei o novo caveirão do Bope igualzinho ao batmóvel do Christian Bale?

What's the Collor of the United States?

It's the black one.

César Maia

O STF editou uma súmula vinculante que proíbe a contratação de parentes de até terceiro grau em toda a Administração Pública. Ministros e secretários de Estado são as exceções.

Então, César Maia (DEM), prefeito do Rio, exonerou a irmã, subsecretária, e a nomeou secretária especial de eventos. Ele tem outros quatro familiares em cargos políticos.

A Secretaria Especial de Eventos não existia, e ele a criou sem a autorização, exigida, da Câmara Municipal. Afirma ter, apenas, mudado o nome do cargo. Oras, então a proibição continua.

Vereadores cariocas, façam algo.

E, eleitor: se o sebosíssimo e escrotíssimo prefeito aparecer na urna, não vote nele.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

As mentiras que a sociedade conta

Como o mal do leite com manga e o sopro afixador dos anjos, a sociedade espalha e estimula uma grande bobagem: a colação de grau.

O começo do semestre letivo universitário infesta-se das cerimônias. O graduado veste uma roupa ridícula, posta-se com cara de tacho no banquinho, e os entes fazem as mesmas piadinhas e gestos de toda colação.

Na hora do discurso, teoricamente o ápice, a maioria não presta atenção, até porque a qualidade do palavriado não colabora. "Lembro-me daquele almoço no restaurante universitário, lembro-me daquele professor que bebia com a gente..."

Fechando o cenário, como uma Santa Ceia às avessas, a mesa. Professores tratam um momento único na vida do querido aluno como sessão do Congresso: aos bocejos. O olhar distante é clássico, não pode faltar.

Tudo para, no dia seguinte, durante a diarréia causada pela come e bebemoração, o mais novo problema social praguejar por emprego.

Ou começar a ler apostila de concurso.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Cadeado

Deixa disso, sem compromisso
Não precisa fazer rebuliço
Aqui não é feira, nem cortiço
Nosso jeito não é omisso.

A gente faz de tudo um tudo
Do trabalho ao estudo
Vale negro, judeu e mudo
Bobo, arrogante e sisudo.

Mas não vale só atingir a meta
Isso não basta, não completa
Ajudam pinga ou seleta
Mas faz mal a atleta.

Tudo deve ser bem feito
Sim, consegui-lo é um feito
Nada é perfeito
Mas tudo tem jeito.

Tudo vira linha
Linha mesquinha
Refém, tadinha
De mentes como a minha.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O novo futuro da nação*

Começam as aulas da Universidade de Brasília em Ceilândia e no Gama.

Sem cadeiras, sem professores suficientes, sem sala de aula. Parece o campus do Plano Piloto.

Tomara que os alunos surpreendam e tenham bom rendimento, como os cotistas, por mais que as cotas por cor de pele sejam absurdas.

Para evitar que os novos campi sejam apenas estatísticas eleitoreiras.

* É consenso que "da nação" seja cacófano, mas não vou deixar de usar a expressão por frescura de gramático.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Há alguém para você em algum lugar do mundo, acredite

"É tão bom morrer de amor e continuar vivendo."

Mário Quintana

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O inferno de James

O mapa dos oito mares

Rainha. A criatura digna de rei é a rainha.

A esfinge perdeu a feição monstruosa de antes e deitou no chão como um gatinho que brinca com novelo de lã. Dan estava morto, e todos os outros, feridos.

James Cara-de-touro abraçava o livro dourado com força, encarando, temeroso, a porta aberta. A esfinge lambia-se sem dar atenção aos humanos. O português não tinha coragem de sair de onde estava. Perigos quais haveria do outro lado?

A batedura, então, coube a Marccelo Fratelli. Os ouvidos apurados nada percebiam, mas as narinas aspiravam ar mais puro e arejado.

Era uma saída.

O italiano passou pelo portal e retornou em não mais que dois minutos.

- É seguro, podem vir.

A porta dava para um sombrio hall com uma escada do outro lado. Havia areia por todo o chão, ambiente semelhante ao da entrada da Biblioteca. Subiram os degraus para inundarem-se de sol.

Doug carregava o desmaiado Guillermo González, mas jogou-o no chão para cair de exaustão na areia. Todos queriam descansar, menos o capitão, que andava a passos largos rumo a costa. Se tivesse forças, correria.

- Capitão - alcançou-o Andrew Reborn, o sangue jorrando na roupa -, precisamos de descanso. Dê-nos alguns minutos!

- Não os impedi de descansar. Quem quer sair daqui sou eu, vocês fiquem o quanto quiserem. Há egípcios demais no Egito. E livro de menos na biblioteca deles.

Zarparam meia hora depois.

Pedro Magalhães João de Almeida Bargonha Silva Oliveira lavava a pocilga do convés. Guillermo González, acordado, mas grogue, estava sentado no chão. Alguém tinha se lembrado de trazer o corpanzil de Dan. Os piratas faziam questão de enterrar os pares na Ilha dos Amores.

Cara-de-touro enfurnou-se na sala do capitão para analisar o livro-mapa e por lá ficou até muito depois do anoitecer.

Os marujos dormiam em qualquer lugar. Um líquido leitoso escorria da boca de João Silva, não se sabe se saliva ou se sabão. As estrelas contemplava-os silenciosamente, a maré ninava-os e apenas a lua parecia tímida, escondida na juventude.

Talvez com medo do capitão, ainda acordado, cuja reação foi ouvida pelas múmias, a quilômetros.

- INFEEEEEEEERNOOOO!!!!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mãe pode tudo

Aguarda sanção presidencial o projeto de lei que aumenta a licença-maternidade para seis meses. A aprovação é fundamental.

Devemos pensar nas crianças. Vale a pena a isenção fiscal, os riscos no mercado de trabalho. Com seis meses, o bebê pode sentar, é mais resistente. E mãe nenhuma produz o melhor preocupada com o filho.

Quando a mulher não trabalhava, ela garantiu o direito de exercer profissão e ser mãe ao mesmo tempo. Quando não havia licença, a mulher conquistou o benefício. Então, a mulher vai superar a desconfiança do mercado quando viger a nova legislação.

Quem consegue ser mãe, consegue qualquer coisa.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O grande ditador

Ricardo Teixeira.

O presidente da CBF mantém-se no poder desde 1989, um assalto à rotatividade democrática. A culpa da eliminação da Olímpiada não é do Dunga, é do presidente. O time não se reuniu para treinar e não contou com os jogadores acima de 23 anos desejados pelo treinador. Falta de planejamento e habilidade diplomática.

Com Ronaldo, Rivaldo, Diego, Robinho, Kaká, Ronaldinho, Dida, Roberto Carlos, Adriano, o Brasil não ganhou a medalha de ouro. Com Teixeira, o Brasil sequer foi prata. Não consiguiu a classificação para os Jogos de 2004.

Surpresa? A desorganização também custou ao país equipe preparada para a Copa de 2006, mina os clubes brasileiros, pobres, falidos, endividados, suplicantes. Não retemos o craque nos nossos gramados.

Tudo avalizado pelas federações estaduais e pelos clubes, até mesmo o São Paulo, de Juvenal Juvêncio, o modelo de gestão eficiente, blábláblá.

Dunga é a cereja do bolo, o fantoche, ao contrário do líder que ele acha ser. Não podemos chamá-lo nem de estagiário de treinador, está mais para rainha da Inglaterra. Não. Na Inglaterra há progresso, qualidade de vida. Está mais para o jovem Pedro, rei sem governar por falta de maturidade.

O despreparado técnico não jogou nossos laterais e Ronaldinho pra cima dos fracos laterais argentinos, não escalou Pato, melhor finalizador que Sóbis, não deu função a Diego. Acertou apenas em colar Ânderson em Messi. Mas então por que Hernanes jogou tão preso?

A Era Dunga não é mais, acabou. Infeliz, o anão zangado adoeceu a Seleção, montou um time sonolento. Dunga está mais para Dengo, dengoso nas mãos do Mestre das Trevas.

Ricardo Teixeira fica até 2014, organizando uma Copa descabida, superfaturada e parasita, como foi o Pan do Rio. Até lá, seremos campeões do mundo de novo, carregados nos pés dos jogadores.

E, se Teixeira quiser, com outro treinador no banco.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A ganância brasileira por ouro

Atletas brasileiros, desculpem-me.

Desculpem-me por não saber quem era Eduardo Santos. Não, judoca, não diga que foi incompetência, pois conquistar a faixa preta sem recursos é um feito. Eu não conseguiria.

Desculpem-me por exigir tanto de Diego Hypólito. Nosso país não se importa com a dificuldade da ginástica, o preconceito para com o esporte, o massacre psicológico em cima dos atletas. Não, Diego, não peça desculpas pela medalha que não veio, não chore. Deixe que eu derrame lágrimas pela minha ignorância.

Desculpem-me por sequer saber da participação de César, o Cielo, nos Jogos. A vibração dele após a vitória, a concentração de antes... Continue, nadador, a estudar nos Estados Unidos. O Brasil não valhe a pena por culpa nossa.

Desculpem-me, atletas brasileiros, por querer apenas o ouro, o quadro de medalhas, as estatísticas. Sem preocupar-me com o esforço e a preparação de vocês para enfrentar monstros como os Phelps, os Bryant, os Nadal. Os chineses.

A torcida brasileira.

PS: Acalmemos. As brasileiras do futebol feminino só serão ouro se melhorarem a defesa.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Israel e Joaquim

O viaduto Israel Pinheiro, o da EPTG, está pronto. Dizem que o GDF construirá mais três: um antes da residência oficial do governador, outro na altura do Jóquei e o último próximo ao SIA.

O espírito de Roriz ronda a capital.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

As mulheres comandam o mundo

O mapa dos oito mares

De poder e loucuras
Combatê-la não sei
Qual entre as criaturas
É digna de um rei?

Os piratas olhavam-se, atônitos. Com a respiração acelerada, não sabiam o que fazer. Passos mortos e sem rumo soavam próximos.

- Escrava maldita! - bravejou James Cara-de-touro. - Não me alertou da esfinge - esperou dois segundos para ordenar os pensamentos. - Vamos, cretinos, pensem na resposta. E não erremos.

As múmias não estavam a mais de dez ou vinte metros de distância. Andrew Reborn murmurava para si, Cara-de-touro andava de um lado para o outro e Guillermo González encarava a espada que carregava. Os demais não ousavam arriscar a resposta. Marccelo Fratelli roía as unhas.

As múmias chegaram. Sem pensar, os marujos atacaram para não serem acoados. Menos Reborn e González.

- Tá na ponta da língua... - sussurava o australiano.

- Símbolo de rei... Qual criatura... - González. - O símbolo do imperador chinês é o dragão. A bandeira de Camelot porta o dragão. É isso. É isso! - ele encarou a esfinge. - A criatura digna de um rei é o dragão!

Reborn sentiu um mal pressentimento.

Mas a esfinge fez uma boa expressão facial e agachou-se nas patas dianteiras, como se fizesse reverência. González e Reborn aliviaram-se.

Quando ela atacou.

A reverência, na verdade, era um bote. Ela derrubou González com as patas dianteiras no peito dele. O rosto desfigurou-se e revelou um ser sedento por matar. Ela deixou o espanhol no chão e saltou contra Reborn, arranhando-lhe o rosto.

Ela rugia. Ao perceber o despertar da fera, as múmias fugiram. Fatigados, os piratas correram para circundá-la e surpreendê-la. Porém, o monstro não permitiu o ataque e derrubou Dan. Enquanto ela mordia o pescoço do inglês, Cara-de-touro cravou a espada no dorso do animal. A pele dura repeliu a arma.

Todos avançaram, mas a esfinge os afastou com os dentes à mostra. Cansados e assustados, os piratas não viam como escapar. Dan estava morto e González desmaiado.

Encostado na parede e sangrando, Reborn juntou as forças restantes e gritou para o teto.

- A resposta certa não é dragão. A criatura digna de um rei é a rainha!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Seis carros

Fiz uma experiência desejada há muito.

Parei em um sinal na L2 norte hoje pela manhã. Era o primeiro da faixa esquerda. Atrás havia um veículo, ao lado, outro e na faixa direita, outro: nós três emparelhados, e um atrás de mim.

Tudo bem? Tudo bem. A experiência começa agora.

O sinal abriu, e eu arranquei. Não cantei pneu, não forçei a barra, necas. Ao atingir a velocidade da via, 60 km/h, olhei pelo retrovisor.

A pessoa atrás de mim demorou a sair e deixou um espaço entre nós. O carro da faixa central também demorou a sair, logo, à frente dele, havia espaço. O mesmo aconteceu com o carro da faixa direita.

No espaço entre o carro atrás de mim e eu cabia três veículos. Ao meu lado, cabia dois à frente do que estava emparelhado comigo no sinal vermelho. Na faixa direita, à frente do terceiro que estava emparelhado, cabia outro.

Então, havia espaço para seis carros avançarem, e os espaços estavam vazios porque os emparelhados comigo demoraram a arrancar quando o sinal abriu.

Essa demora acontece na maioria dos sinais vermelhos em Brasília. O cidadão pensa na vida, ela passa batom, eles puxam o freio de mão por preguiça de fazer controle de embreagem. Nesse ínterim, o sinal abre, e eles demoram a sair.

Conclusão: em uma contagem rápida, em horário tranqüilo, estava inutilizado espaço para SEIS carros. Imagine, durante horário de pico, quantos carros pegam um sinal mais de uma vez porque o animal à sua frente demorou a arrancar, e o sinal fechou de novo.

Por isso, o trânsito em Brasília engarrafa.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Prefiro magistrais aos que se deputam

A jornalista Lucia Hippolito, do blog aqui do lado, diz haver uma judicialização da política, ou seja, o Judiciário, cada vez mais, decide questões políticas. Segundo ela, isso deve-se à omissão do Legislativo.

Oras, ótimo.

Prefiro que os magistrados do STF decidam no lugar dos congressistas, pois aqueles são mais preparados e mais idôneos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Responda certo e vá em paz

O mapa dos oito mares

Um ou outro calango foi a companhia dos piratas durante seis horas. O sol espreguiçava-se, mas não conseguia entrar na Biblioteca nem mesmo ao meio-dia. Devido ao ambiente abafado, Guillermo González sentia o suor jorrar dos poros e escorrer as costas até se acumular na calça como em um delta de rio. A barba de James Cara-de-touro colava-se ao peito.

Nenhum sinal de Marccelo Fratelli, com o caminho da saída.

Andrew Reborn não se importava com a roupa empapada nem com o nariz entupido de poeira. Após explorar cada estante, cada seção com cuidado, deparou com os dizeres "Cartografia".

- É aqui, chefe.

Cara-de-touro contemplou a estante, maravilhado. Não podia vê-la toda, pois sumia na escuridão do teto e no horizonte da vista. Havia material de todo tipo: rolos de dois, três metros de comprimento, enrolados e presos com elástico; livros de mil páginas; bússolas quebradas ou não. Andrew Reborn leu para si nomes como "Pe r var s C l", "Vasco da Gama", "Vespúcio", De art s. Alguns descascados pelo tempo. Absorto pelo cerco de conhecimento, lembrou-se de perguntar:

- Qual procuro?

- Sabe, Reborn - respondeu o capitão -, os egípcios são inteligentes, mas demasiado arrogantes. Ostentam o que têm, por isso há quem roube pirâmides, queime bibliotecas... - e apontou para um livro dourado, a sete metros de altura. As chamas das paredes dançavam no reluz da lombada e olhá-lo doía a vista, como encarar a Medusa. - Espadas - ordenou em murmuro.

Todos desembanharam as armas e, para a surpresa dos marujos, sem explicação, o capitão deu uma sobressalente para González.

- Agora, energúmenos, vamos pegar o livro com cuidado e procurar o Fratelli - as palavras eram não mais que sopros, sussurros. - Quando eu tirá-lo da prateleira, os guardas virão e você, Reborn, pode pegar o que quiser, mas não vai conseguir fugir com o peso. Dan, Doug, vigiem e dêem cobertura. Atenção, movam-se com cui-da-do.

Dan e Doug, os ingleses, posicionaram-se um de cada lado do grupo e deram as costas a ele. Dan mal se agüentava sobre as pernas, a espada tremia como vara de bambu verde. Olhava de esguelha para a direita e a esquerda rapidamente e só via livros, poeira e o fogo das paredes.

Não deu atenção para a movimentação atrás, onde os demais tentavam alcançar o livro dourado. Concentrava-se apenas no que via e no que poderia aparecer a qualquer momento.

Apareceu.

Uma criatura horrenda materializou-se na frente do inglês, dando-lhe um susto. Ele gritou e brandiu a espada de cima para baixo, mas ceifou o ar e o chão, pois o ser fugiu em um pulo para o lado. Sem pensar, Dan ergueu a lâmina em um movimento horizontal para decapitar a coisa, que se abaixou. O inglês rasgou cinco, seis livros de uma vez e jogou outros tantos no chão. Com o balançar da estante, o livro dourado caiu com um baque que mataria uma pessoa.

Os demais fitavam os combatentes arfantes, cuja ação não demorou mais que vinte segundos. Após a queda dos livros, todos ficaram imóveis e mergulhados em silêncio gritante. Cinco segundos atônitos bastaram para Cara-de-touro se recuperar.

- SUAS MULAS BASTARDAS, QUEREM SER ENTERRADOS AQUI? EU NÃO FALEI QUE OS GUARDAS VIRÃO SE TOCARMOS NOS LIVROS?

- Chefe... - tentou o português.

- ÉRAMOS PARA PEGAR SÓ O DOURADO, COM DISCRIÇÃO! AGORA ELES SABEM ONDE ESTAMOS!

- Capitão - repetiu o luso -, se o senhor gritar vão chegar a nós mais rápido.

- Não importa o que façamos - bufou Cara-de-touro. - Eles não escutam - rumou à criatura que assustou Dan e agarrou-a pelo colarinho. Era Marccelo Fratelli. - Mostre o caminho.

- Quase me mata do coração, desgraçado - Dan.

- Eu vou matar o seu coração se não calar a boca - retrucou o capitão.

Com o livro debaixo do braço, Cara-de-touro seguiu pelos corredores atrás de Fratelli. Olhava para todas as direções, vigilante, espada na mão. Até que viu um movimento em um espaço vazio da estante ao lado. Grande demais para ser um rato.

- ÀS ARMAS!

Uma espada surgiu do buraco na estante e estocou contra o pescoço de James, que a repeliu com um movimento circular da própria lâmina. O braço inimigo estava enrolado em faixas, embalsamado.

Múmias guardavam a Biblioteca de Alexandria.

E eram muitas. Por espaços nas fitas, podia-se ver pedaços do corpo. Conservado demais para um morto, apodrecido demais para um vivo. Elas carregavam espadas curvas, típicas da Arábia, e cajados dourados. Lutavam debilmente como se o ar fosse o adversário, e o que atingissem era lucro. Só não atacavam os livros.

O esforço dos piratas consistia não em vencer cada batalha, mas em passar por cima dos caídos, que entupiam os corredores. González ajudava como podia e, inclusive, salvou a vida do capitão quando ele foi flanqueado por quatro múmias. Reborn abandonou o embate, mas logo reapareceu com O desconhecimento, de Sócrates, na mão esquerda.

A trancos e barrancos, pisando nos corpos jazidos que cobriam o chão, seguiram Fratelli, embestados. Em dado momento, chegaram a um corredor sem múmias e puderam correr. Em minutos, chegaram a uma porta fechada, com hieróglifos no portal.

- A única porta que encontrei foi essa - Fratelli, sem fôlego.

Reborn aproximou-se e traduziu as figuras, em voz alta.

- "Mulheres são femininas, felinas, cretinas e libertinas".

A porta se abriu. Quando os piratas avançaram, foram barrados por uma figura quadrúpede, não maior que um pastor alemão. Era uma esfinge.

- Para merecer o conhecimento - começo ela, em voz aveludada e afeminada -, precisa-se de conhecimento. Responda certo e vá em paz.

Aturdidos, os homens não tiveram reação e escutaram.

De poder e loucuras
Combatê-la não sei
Qual entre as criaturas
É digna de um rei?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Agradável acordar cedo

Pior que a arbitragem da estréia do futebol masculino brasileiro na Olimpíada; pior que o Dunga como treinador, que não orientou os jogadores a tocarem rápido a bola para sair da marcação belga, e sim determinou que cadenciassem o jogo, como Parreira gosta; pior que a narração do Luciano do Valle.

É a narração do Galvão Bueno.

PS: poderia, algum dia de suas vidas, Josué ou Mineiro ou G. Silva marcar o gol que Hernanes marcou?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A espada é a lei

Começa hoje no STF o julgamento que determinará se candidatos com ficha suja podem concorrer às eleições.

Os 11 do Supremo são o escrete, a esperança nacional. Eles não são comandados por um anão zangado, mas pela inexorável espada da Justiça.

Cabe aos magistrados vestir a toga preta como o cavaleiro das trevas veste a capa.

Eles não podem ser o cavaleiro branco de duas caras.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Cem coisas sem as quais não posso viver

Parafraseando João Pereira Coutinho, colunista da Folha Online.

Do quarto
1 Cama
2 Colchão
3 Lençol
4 Lápis
5 Bloco de notas
6 Fotografia da minha mãe
7 Fotografia da minha namorada
8 Edredon

Roupas
9 Camisa preta
10 Camisa branca
11 Camisa azul
12 Calça jeans
13 Calça social
14 Bermuda
15 Camisa para o futebol
16 Tênis para o futebol
17 Tênis
18 Sapato
19 Par de meias brancas
20 Par de meias pretas

Música e literatura
21 Violão
22
CD do Zezé di Camargo e Luciano, a melhor dupla sertaneja
23 CD do Bruno e Marrone, para chorar
24 CD do Jorge e Mateus, para divertir
25 CD do Skank, gravado ao vivo em Ouro Preto
26 CD da Ana Carolina, para escandalizar
27 CD do Falamansa, para dançar
28 A República, de Platão, para ter um modelo de Estado
29 Os lusíadas, de Camões, a obra mais fantástica
30 Harry Potter, a leitura mais agradável
31 Memória de minhas putas tristes, de G. G. Márquez, para ler de novo ao envelhecer
32 As crônicas de Artur, de Bernard Cornwell, para ler pela terceira vez
33 Quincas Borba, de Machado de Assis, para tentar ler pela décima vez
34 A saga dos Foxworth, de V. C. Andrews, para ler sempre
35 Dicionário Houaiss, para ler sempre
36 Dicionário de questões vernáculas, de N. M. Almeida, para ler sempre
37 Gramática metódica da língua portuguesa, de N. M. Almeida, para ler sempre
38 Assassinato no Expresso do Oriente, o melhor livro de Agatha Christie
39 O céu está caindo, o melhor livro de Sidney Sheldon
40 A era dos extremos, de Eric Hobsbawn, para entender o mundo
41 Estante
42 Sofá
43 Lentes de contato
44 Limpador de lentes de contato
45 Óculos, para descansar das lentes de contato

Higiene
46 Bucha
47 Sabão
48 Xampu
49 Chuveiro
50 Sanitário
51 Papel higiênico
52 Pia
53 Escova de dentes
54 Pasta dental
55 Fio dental
56 Toalha
57 Cortador de unha

Da cozinha
58 Mesa
59 Cadeira
60 Cadeira
61 Prato
62 Prato
63 Garfo
64 Garfo
65 Copo
66 Copo
67 Pia
68 Lixeira para jogar as embalagens de comida comprada
69 Guardanapo
70 Guardanapo
71 Tesoura, para abrir o leite de caixinha
72 Colher, para misturá-lo com achocolatado
73 Faca

Outros
74 Computador, para A cova não morrer
75 Carteira de motorista
76 Carro
77 O sábado, melhor dia da semana
78 A expectativa do próximo sábado
79 Assinatura da Folha de S. Paulo
80 Assinatura do Correio Braziliense
81 Feriado, para alimentar o vício
82 Coca-cola, para desentupir o espírito
83 Açaí, para entupi-lo
84 Banana
85 Morango
86 Leite
87 Liqüidificador
88 Energia elétrica, para fazer vitamina
89 O Campeonato Brasileiro
90
A Liga Espanhola
91 A Liga Inglesa
92 A Série A italiana
93 A Copa Libertadores da América
94 A Liga dos Campeões da Europa
95 A Eurocopa
96 A Copa do Mundo
97 O torneio olímpico masculino de futebol
98 Foto dos meus amigos
99 O remédio Flogan, para a dor de ouvido
100 O meu apartamento para receber a minha mãe, a minha namorada e os meus amigos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Conveniência político-esportiva

O espírito olímpico briga com o espírito de Mao. Mostrar uma China inexistente - linda, maravilhosa, onde todos são felizes - era estratégia do ditador. O governo comunista, como no século passado, mostra, aos estrangeiros, chineses tristes por baixo da bela maquilagem oriental.

Usar o esporte como detergente para a sujeira política e social é comum. O título na Copa do Mundo de futebol em 1978 deu fôlego à ditadura argentina. Hitler queria mostrar superioridade ariana na Olimpíada de 1936; ainda bem que o rápido e negro Jesse Owens o contradisse.

Aliás, o Brasil faz isso de dois em dois anos. Ora as atenções voltam-se para a Olimpíada, ora para a Copa do Mundo de futebol. Sempre em ano eleitoral.

PS: Poucas vezes me senti tão frustrado quanto ontem em relação a esporte. Felipe Massa não merecia perder a prova mais brilhante da carreira.

Cassados e afastados

Não vote neles: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u429423.shtml.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Só para constar

O presidente Lula fez a burrice do Senado: gastar R$ 12 milhões em contratações sem concurso.

O governo federal não precisa de mais ministérios, ao contrário, deve enxugar a máquina pública, como fez o governador Arruda com as secretarias distritais.

E Lula deveria melhorar os salários do Executivo.