sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Eles não perdoam

O peso do mundo massacra as minhas pernas.

As olheiras do sono mancham o meu rosto.

O latejo da dor massageia a minha cabeça.

O excesso da informação transborda o meu cérebro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Assombração de fim de ano

Ele está à solta, inexorável. Escapar dele só se fugirmos para o Everest. Ele embrenha-se pelos quatro cantos do país, pelas casinhas de bonecas e pelas repartições públicas.

O espírito natalino.

Estamos em novembro, o Dia do Evangélico não passou, e o tal espírito nos assombra. Árvores de Natal brotam do concreto, neva aos 30º C, o mercado de trabalho para papais noéis esquenta.

Posso ouvir o dingonbel, o garoto-propaganda das Casas Bahia e o trocadilho do “rô, rô, rô” com a expressão “roer as unhas”.

Até as liquidações de estoque em janeiro conviveremos com o fantasma dessa data comercial. Jesus Cristo, se por acaso não ressuscitou, revira-se no túmulo.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O nosso sangue, o lucro deles

Ontem tive aula sobre o jornalista José Hamilton Ribeiro, ex-repórter da Realidade e atual repórter do Globo Rural. Ele é famoso pela cobertura da Guerra do Vietnã, onde perdeu parte da perna esquerda ao pisar em uma mina.

Professores da academia de jornalismo enaltecem Hamilton como exemplo a ser seguido pelos estudantes devido à qualidade do texto e disposição para apurar a informação.

Recentemente, um repórter, em dúvida se aceitava o convite de cobrir a Guerra do Iraque, perguntou a Hamilton se ele deveria aceitar. A resposta foi que não se deixa de cobrir o acontecimento mais importante do mundo.

Quando esteve no Vietnã, Hamilton achava não ter foto satisfatória para a reportagem de capa que estava escrevendo. No último dia na guerra, o seu grupo descobriu um lugar onde havia feridos, oportunidade preciosa para a tal foto. Foi nesse incidente que Hamilton pisou na mina e perdeu o que havia abaixo do joelho esquerdo. Essa situação foi a foto.

Não podemos alimentar esse jornalismo. Repórteres são ávidos pela cobertura gloriosa, mas empresas de comunicação não são ávidas por proteger os profissionais. Enquanto o jornalista está na linha de frente, de cara para as balas, o empresário dono do jornal está a quilômetros sentado em uma poltrona.

Hamilton fez uma cobertura brilhante, a Realidade teve a foto, mas isso não paga os riscos e o ônus. A capa mostra a foto de Hamilton ferido, com a sensacionalista legenda dizendo que o “nosso repórter” viu a guerra de perto.

Isso não é glorioso, trata-se de aproveitar a tragédia para vender exemplares. Empresas de comunicação alimentam-se da ânsia dos repórteres por matérias espetaculares. E os estudantes mantêm o ciclo vicioso.

Algo semelhante aconteceu com Tim Lopes. A Globo ostenta o quanto ele era brilhante, competente, corajoso. Era. Era tudo isso e não é mais porque morreu em uma reportagem, enquanto o patrão ganha audiência com a morte do empregado.

Reconheço a importância da cobertura de guerra. Porém, é inadmissível jogar os profissionais aos leões sem dar-lhes condições de trabalho e – a que ponto chegamos – de sobrevivência. Senão o empresariado lucra com o sangue do repórter. Com o nosso consentimento.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Durma mais tarde

Fiel leitor, durma após a meia-noite hoje.

Poderá assistir a belo espetáculo, precioso após a temperatura das últimas semanas.

O calor à Brasília, fonte de rios de suor costas afora, deu lugar à neblina que não permite enxergar uma unha à frente do nariz.

Contemplá-la com as luzes artificiais acesas, chocolate quente e boa companhia é imperdível.

Aproveitemos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Eu tenho um sonho

O mapa dos oito mares

Às 4h31 uma estátua postava-se no convés do Refante. O céu português mostrava um nublado teimoso que durou a noite toda. O ambiente sonoro estava tão barulhento quanto de dia, culpa do ronco dos marujos.

Aquela estátua tinha o curioso hábito de respirar. Seu olhar paralisado fez dois breves movimentos laterais, um para a esquerda e outro para a direita. Havia sacos humanos por todo canto: dentro de balde, enrolado no mastro, sobre a murada do convés. O cheiro era alcoólico, mas não havia sinais de vômito. Afinal, pirata não vomita de embriaguez nem de enjôo, e se o fizesse não seria pirata.

Um violão com três cordas arrebentadas estava jogado no meio do piso. Um homem tinha amarrado na testa casca de babata descascada a faca. Uma brisa leve e fria sibilava nos ouvidos. Todos os dormentes, sem exceção, babavam. A estátua não podia ver Guillermo González dormindo no porão, em cama feita de batatas podres, nem o capitão James Cara-de-touro, enfurnado na própria sala.

Ao constatar que ninguém lhe daria atenção, a estátua sacou uma corneta dourada, encheu os pulmões e tocou até esvaziá-los.

Ninguém se mexeu. Até mesmo a brisa resolveu recolher-se. Quem se manifestou foi o cheiro de álcool, que ficou mais forte.

Entretanto, um homem acordou. Acordou, mas não abriu os olhos. Era o homem com casca de batata na cabeça.

Vítor Hugo Metallion, o cozinheiro, não conseguiu lembrar o sonho interrompido, mas podia jurar que se tratava de uma princesa medieval. Desperto, procurou na mente maneira dolorosa para punir a fonte de barulho. Encontrou cinco, mas as descartou por falta de coragem de aplicá-las.

Levantou a contragosto. Podia ouvir o ranger das articulações enferrujadas e mal conseguia suportar o próprio hálito. Com os olhos sujos de sono, passou batido pela estátua a procura da corneta inconveniente. Passados alguns segundos, constatou que havia algo de estranho no convés.

Uma corneta na mão de uma estátua.

Olhos semicerrados pela sonolência, investigou o instrumento de sopro e esticou a mão para pegá-lo. Antes de conseguir, a estátua manifestou-se.

- Vossa reverência padre Ernesto, de tão bondoso e sensato, trouxe pequena comitiva para a empreitada rumo ao destino do livro dourado.

O cozinheiro lembrou o sonho. Tratava-se de uma estátua falante e tocadora de cornetas. Ao ouvir as palavras daquela voz grossa, aliviou-se porque aquilo só podia ser sonho. Continuava a dormir.

- Onde está o padre e seus seguidores?

- Ali, aguardando o embarque.

Ele apontou para um ponto na praia. Vítor Hugo Metallion aproximou-se da mureta do convés, apoiando nela as mãos. Quando viu a comitiva do padre, arregalou os olhos. Se antes achava que estava dormindo, agora achava que estava a beira do apocalipse.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

PSs de Brasil e Portugal

O Brasil jogou bem contra o frágil Portugal.

Há muito sabemos que há dois imperadores em Milão: o segundo chama-se Júlio César.

Maicon mostrou o futebol da Internazionale e não o futebol do Maicon.

Kléber mostrou o futebol do Dunga, mais uma vez. Contudo, creio que o treinador apenas aguarda o amadurecimento de Marcelo.

Luisão mostrou que há zagueiros melhores que ele, inclusive Thiago Silva.

G. Silva não comprometeu.

Sobre Anderson, veja o post abaixo.

Elano, fez um golaço, atuando como ponta-direita, o que faz dele boa opção tática.

Robinho foi o que se espera dele: sem prender a bola, servindo os companheiros.

O melhor jogador da partida foi Luís Fabiano. Cumpriu o papel de centroavante: se receber bola na área, faça o gol. O primeiro foi finalização consciente; o segundo, giro contra o zagueiro; o terceiro, oportunismo. Não precisamos de Amauri, jogador limitado.

O pior no lado do Brasil, além das bobagens do Galvão Bueno, foi Kaká. Prendeu demais a bola e perdeu preciosa chance de gol. Mas como é o melhor do mundo, construiu excelente jogada no segundo tento brasileiro.

PS 1: C. Ronaldo é o melhor jogador da temporada.

PS 2: Ao longo das carreiras, Kaká é melhor que o português.

PS 3: Chamem Autuori, Luxemburgo ou Muricy para técnico, por favor.

PS 4: Quantos mosquitos haviam nas cabines de imprensa!

Vai sobrar tempo

Não preciso mais ler jornais. A imprensa está tão previsível, que posso usar o tempo para outras coisas. Se o Brasil empata ou perde, o Dunga vai cair. Se vence, ele ganha força.

Jornalistas em que confio, como o Quartarollo, da Jovem Pan, vêm com o papo furado de que está tudo muito bem, tudo muito bom. Logo a Jovem Pan, grande corneteira e metida a debochada.

O Brasil ganhou porque Portugal está mal treinado, com defesa mal postada. Pelo menos há o mérito de Dunga orientar o time a jogar pelas laterais (espero que essas jogadas tenham sido orientação dele e não sacada óbvia dos jogadores).

O principal problema do time canarinho persiste: a saída de bola, não resolvida com a titularidade de Anderson, como eu imaginava. Porém, creio que uma seqüência de jogos resolverá.

Portanto, fiéis leitores, sem ilusões. O melhor para a Seleção é a troca de treinador. Questão puramente técnica.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Aquarela brasileira

Hoje é o Dia da Bandeira. Apenas em duas ocasiões eu vejo tal símbolo nacional enaltecido: no broche do presidente Lula e no sobrenome de personalidades como os escritores Manuel e Pedro.

Em outras situações, a bandeira brasileira recebe a ignorância ou o descaso. Muitos não sabem que, ao tocar o hino nacional, devemos postar-nos de frente para ela. Outros sequer sonham quantas estrelas há no círculo azul: 27, o número de unidades da Federação.

Muitos menos são os que conhecem a origem do “Ordem e progresso”, palavras de ordem positivistas, resquícios do autoritarismo de outros tempos.

Pelo menos, o significado das cores é conhecido, suponho. O verde, das matas desmatadas; o amarelo, da riqueza roubada; o azul, das águas poluídas.

E o branco, da paz sonhada.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Oásis acadêmicos

Universitários conhecem a facilidade de encontrar professores desqualificados e mal-intencionados nas faculdades afora. Notas arbitrárias, falta de didática, desconhecimento do conteúdo ministrado. Encontra-se de tudo.

Contudo, fui surpreendido pela ação de uma professora. Trata-se de Rosângela Vieira, jornalista e escritora, com quem tenho divergências quanto a gostos e opiniões acadêmicas, mas que demonstrou ontem coerência e sensibilidade.

Na aula dupla de segunda-feira à noite, cheguei atrasado para o primeiro horário. Portanto, ao final do horário, procurei-a para pedir a presença do segundo horário.

- Dei-lhe a presença da aula toda, pois você é um dos mais assíduos.

Sim, eu fui a todas as aulas, no horário marcado, mas não esperava tamanho bom-senso. Lembrou o professor Barbosa, do Departamento de História, que fazia uma chamada no começo e outra no final da aula para os atrasados poderem confirmar presença.

Lembrou também o professor Sobral, do Departamento de Literatura, que sempre se dispõe a revisar as provas e mostra toda a semana as notas dos alunos para acompanharmos nosso rendimento, sem esconder o resultado das avaliações.

Os três – Rosângela, Barbosa e Sobral – dominam o assunto das aulas e sempre abrem espaço para os alunos comentarem ou perguntarem. São coerentes e dispostos para com os alunos.

Aos bons professores, dedico estas linhas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Os sabichões

A fiel leitora desculpar-me-á pelo excesso de futebol nessas humildes postagens. Mas o fim do Campeonato Brasileiro é pauta para mim como novela é pauta para revista sensacionalista.

Não falarei dos meus corriqueiros incômodos, tão discutidos aqui: o oba-oba flamenguista, a limitação são-paulina, o erro chamado Dunga. Não. Hoje gostaria de falar da imprensa esportiva.

É desagradável todo fim de rodada conferir enquetes de blogs e o teor dos textos. Quando o time A está em primeiro, ganhará o campeonato. Quando o time B, tudo muda, o time B é o melhor.

Mesmo com as oscilações da tabela, e até por causa delas, os comentaristas deveriam analisar os times e traçar linha de raciocínio definitivo.

Sempre achei que: a) o Palmeiras será o campeão; b) o Flamengo não irá para a Libertadores. Posso, sim, estar errado, mas mantenho tais previsões. E no caso de erro, explicar-me-ei neste espaço.

Tudo para manter a coerência e respeitar a sua inteligência.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

PC Farias

O serviço secreto americano usa codinomes para lidar com pessoas. O de Barack Obama é "Renegado". Uma das filhas dele chama-se "Botão de Rosa".

Como sãonomes brasileiros no serviço grampeado brasileiro? O presidente Lula, aposto, chama-se "Botão de Camisa Aberto". Se não, é "Dentinho", certeza!

José Serra só pode ser o "Testa de Ferro", óbvio. O senador democrata Heráclito Fortes faz jus a "João Plenário".

Conheço pessoas cujos nomes são "Tati Quebra Barraco", "Dida", "Tales" e "Jaba". O serviço brasileiro não me engana.

Quanto a mim, arrisco ser conhecido como "PC Farias", apelido de infância. Só não vale "o Bambi Dragão".

E você, fiel leitor, como o serviço secreto te chama?

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Entre um gole e outro

O mapa dos oito mares

Padre Ernesto ficou uma semana sem dar notícias. Os refantes esperaram no navio, impacientes, apenas com o capitão James Cara-de-touro tranqüilo. O ar agoniado e demente dos últimos tempos cedeu à pose serena típica do comandante.

Tinha o tradutor, isso bastava. Não tinha o livro, fagocitado por Ernesto, mas este não tinha o navio e a tripulação. Cara-de-touro confiava na troca: ele entra com a estrutura, o padre com a decifração. Estava certo de que o religioso não recorreria a outro marinheiro.

Quando Ernesto citou a fama do capitão, queria ostentar conhecimento do estranho, mas apenas deu subsídios a ele. Se demonstrara tanto interesse no livro dourado, este tinha valor, e para alcançar preciosidades, deve-se lançar mão dos melhores.

Cara-de-touro não era o melhor, tampouco o Refante era o melhor navio. Porém, as línguas diziam que o navio era mágico, e o capitão, milagreiro. Era fato a memória prodigiosa e organizada de Cara-de-touro, mas esse era seu único talento além da habilidade de unir pessoas tão diferentes como os refantes.

Portanto, James era um homem enquanto o capitão James Cara-de-touro era uma lenda. Padre Ernesto, rapinoso e oportunista, não perderia a oportunidade de escravizar os serviços de alguém tão importante.

Por outro lado, o comandante precisava apenas de fazer o padre falar. Assim, decoraria a rota para onde o mapa levaria, ou seja, mal se preocupava com a perda do livro. Quanto às exigências do padre, pensaria nelas depois.

Agora só queria ouvir mais uma piada do cozinheiro Vitor Hugo Metallion e beber mais um copo de cerveja.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O livro, a corte e o negro

- Quando se lê esse livro, desiste-se do Brasil.

Estava eu no corredor da faculdade com alguns amigos. O professor Wágner Rizzo, do Departamento de Publicidade, dirigia-se à sala de aula quando me viu com a obra e proferiu a frase. Era o 1808, livro-reportagem de Laurentino Gomes.

Trata-se de belíssimo exemplo de best-seller com qualidade. A linguagem é muito simples, e a seqüência de idéias, bem elaborada. Não é necessário construções sintáticas escabrosas para escrever algo bom.

Agora, pensando na frase do professor, ele tem lá sua razão. Um dos personagens do livro, um estrangeiro hospedado no Brasil, diz ser uma pena terra com tanta riqueza ser colonizado por nação sem brilho e talento: Portugal.

Às vezes penso como seria um Brasil mais afrancesado ainda, caso Napoleão tivesse dominado o mundo; um Brasil mais inglês ainda, se o liberalismo não desincentivasse a colonização; um Brasil alemão, se o nazismo tivesse triunfado.

Mas há tempo para experiências. Quem sabe o Obama não invade essas bandas daqui?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O poder do Poder

Sustento em círculos sociais a tese de que é melhor trabalhar em órgãos da Justiça do que no legislativo, onde os salários são maiores.

Não há dinheiro que compense a politicagem e trabalhar para interesses privados de parlamentares. Na Justiça, pelo menos, lida-se quase sempre com concursados (membros do Ministério Público e juízes), o que minimiza problemas com o ambiente profissional.

Sempre que levanto tal opinião, logo sou contestado. “O legislativo é o topo da carreira de concurseiro”.

Tá bom, tá bom. Se vocês insistem...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A falácia da criação são-paulina

Para preencher espaço nos jornais, a imprensa esportiva levantou a suspensão do meia são-paulino Hugo para o jogo contra a Portuguesa. Que falta faria o rapaz?

Nenhuma, fiel leitor, nenhuma. Hugo é apenas um jogador mediano em boa fase. Para termos noção de como ele é secundário ao time, basta refletir sobre as suas melhores características: boa chegada ao ataque por meio do jogo aéreo e marcação do defensor adversário.

Oras, isso é lá qualidade de meia? Meia deve ter bom passe, finalizar de fora da área, segurar a bola quando necessário, driblar. Ou pelo menos alguns destes atributos.

Ano que vem, se chegar jogadores como Conca ou Verón, conforme se especula, Hugo vai para o banco. Sumariamente.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ou comigo ou contra mim

Quando a conversa de bar descamba para a discussão direita/esquerda, calo-me. Creio que acabaram tais conceitos ideológicos.

Hoje o direitista senta ao lado do esquerdista, ambos compõem o mesmo governo. Sarney é governista, Heloísa Helena é oposição.

Os que se intitulam de esquerda tomam medidas liberais e vice-e-versa. O mais famoso e poderoso socialismo adotou medidas capitalistas logo de cara: Lênin na URSS. O contrário é o mais famoso e poderoso capitalismo: os EUA, que sempre foram protecionistas e volta-e-meia injetam dinheiro na economia conforme a crise.

Por isso, defendo a divisão situação/oposição. Ou você está com o governo ou não. O resto é discussão obsoleta.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

James quer descansar

O mapa dos oito mares

Diante do silêncio do chantageado, padre Ernesto continuou.

- A quinta exigência para eu traduzir o livro é a sua fidelidade e obediência eterna para com a Igreja Católica.

James Cara-de-touro estava cansado. Não queria mais discutir, argumentar. Só desejava voltar para o Refante e dormir. A tripulação estava incrédula com tudo aquilo, não acreditava que o capitão aceitasse tal humilhação.

- A sexta condição é que você escreva, para acrescentar ao patrimônio da Igreja, todas as rotas marinhas que conhece – Cara-de-touro ergueu os olhos para ele. - Sua fama vai longe, capitão.

- Eu não sei escrever, padre – sussurrou.

- Não se preocupe. Há monges suficiente para escrever outra Bíblia com o seu conhecimento. Sétima e última condição... Não sei... Ainda tenho o que pensar, mas vou defini-la. Aguarde instruções minhas, herege, voltarei para catequizá-los e dar as primeiras ordens!

Deu as costas e entrou no casarão. Com o livro. O comandante foi cercado pelos marujos.

- Mas que diabos está fazendo? Entregando o paiol aos porcos!?

- Vamos invadir essa coisa logo, pegar o livro e dar no pé!

- Vamos esquecer essa bobagem de livro!

Cara-de-touro respirou fundo, organizou os pensamentos e disse em voz serena, a caminho do sonhado sono:

- Vamos ficar, atender às condições e ver o que o mapa tem para nos mostrar.

- Mas...

- Quantos fluentes em tupi-guarani você conhece? - sem resposta, James continuou. - Quem quiser desistir, vá embora. Ninguém precisa ser crente, não quero parceiros de má vontade. Mas eu ficarei.

- Que isso, bovino? - contestou Marccelo Fratelli. - Ninguém aqui abandona o barco.

- Mas estaremos perdidos se aceitarmos tudo! - questionou Andrew Reborn.

- O cretino fez seis exigências, o número da besta. Tenha certeza de que isso só vai trazer azar para ele – o capitão fez uma pausa. - Nosso objetivo é desvendar o mapa. Só. Depois resolvemos o que fazer. Já briguei com Deus e com o diabo. Não será esse paspalho que vai me vencer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Bênção para o abençoado

Hoje blogs do mundo inteiro falam sobre a eleição de Barack Obama. Eu fiz campanha por ele, sim, para ser presidente do mundo. Tenho comigo que o principal nesse pleito era tirar os republicanos democratas da presidência. Então, sobraram os democratas republicanos.

Não sei se Obama é Kennedy, Collor, Saddam ou Osama. Eu sei que ele é Barack, “o abençoado”, e que tem um belo pepino nas mãos. Quando Lula foi eleito, a esperança venceu o medo. O medo deu o troco em 2005 e agora perdeu para o bolsa-família.

Que a mudança não perca para o americanismo. No fim das contas, a frase mais sensata sobre o assunto foi dita pelo Vaticano: “que Deus [realmente] abençoe Obama para que ele corresponda às expectativas depositadas nele”.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Culpa de todo mundo

Eu não sou ateu

Apenas sou mais eu

Não quero competir com Deus

Tampouco dou adeus

A questão é que há príncipes errados

Com tudo o que há de bom

E príncipes dignos do trono

Relegados ao abandono

Afinal, Aquiles venceu Heitor

O ator principal é o vilão

Todavia, a vida tem várias vias

Alguém deveria fazer o certo dar certo

Não apenas o passarinho do incêndio

Mesmo no terceiro milênio

Nós não nos damos conta

De que não damos conta

De pagar a conta

E gastamos por gastar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O lamúrio da vitória

Foi o Tema da Vitória mais triste desde a morte de Senna. A decepção do pai de Felipe Massa, estampada após a ilusão do caneco, contrastou com a segunda vitória no GP Brasil, feito tão maravilhoso que não pode ser esquecido por que o título não veio.

Massa foi elegante, grandioso e competente. Hamilton também, mas ele é inglês. Os ingleses, fora o Mr. Bean, não têm a graça de ser brasileiro.

Hamilton pode ser negro, pode ter sido pobre, mas não é brasileiro. Não é a mesma coisa. O que o brasileiro ganha vale muito mais do que qualquer outra nacionalidade conquiste.

Só sendo brasileiro para entender.

Não sou ufanista, Policarpo Quaresma. Não.

Sou apenas brasileiro.

domingo, 2 de novembro de 2008

Com o brasileiro, não se brinca

Assisti ontem a O ano em que meus pais saíram de férias. Não espere de mim, fiel leitor, que eu seja atualizado a respeito de cinema.

O filme mostra a dicotomia ufanismo pela Copa de 70 e ditadura militar. Esta aproveitou-se do sucesso futebolístico para propaganda do regime.

Mas não é disso que quero tratar.

A película mostra como o futebol mexe com o brasileiro, como é importante para o amor próprio, a inclusão social. Com isso não se brinca.

Daí vem Ronaldo, em entrevista à TV por assinatura, confessar que se apresentou acima do peso na Copa de 2006. Kaká, no mesmo programa, admitiu a péssima preparação.

Os jogadores fizeram pouco caso do mundial, a comissão técnica submeteu-se à ganância parasita de Ricardo Teixeira. Cuspiram na nossa cara, em nós que contávamos com uma participação digna.

PS: Gostaria de escrever algo sobre Felipe Massa, mas a minha inspiração não permitiria algo mais do que o pieguismo.