domingo, 29 de novembro de 2009

Acabou, acabou, acabou

Fiéis leitores, eu sei que é difícil admitir, ainda mais da parte de vocês: este blog acabou.

Não o enterremos; aqui é uma cova, isso basta.

Meus esforços concentram-se na redação de textos maiores. Planejo para os próximos cem anos publicar um romance e uma biografia.

Mas nunca se sabe: entre nesta página todos os dias para ver se há novidade. Talvez eu volte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Tripartite partida

Senado, reprove a indicação de Toffoli para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Conforme o princípio de pesos e contra-pesos, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário devem equilibrar um ao outro. Por isso o presidente da República indica nomes para o STF, e o Senado aprova ou não.

Toffoli foi advogado do PT e reprovou em dois concursos para juiz de direito nos anos 90, ou seja, não possui independência e preparo para a carreira de ministro.

Lula deveria preencher a vaga com um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), pois a vacância veio após a morte de um ex-ministro desta corte. É justo o STJ reivindicar uma vaga permanente no STF, mesmo que em acordo de cavalheiros. Isso incentivaria juízes de carreira a galgar promoções por antigüidade e merecimento até chegar ao posto máximo da magistratura no Brasil.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Engarrafamento do bem

Ontem, na volta do Plano Piloto para Taguatinga, às 18h, fiquei três minutos ou mais parado na Estrutural. Parado. Não no esquema primeira-segunda-primeira marcha. Eu estava parado. Alguns motoristas desceram dos carros, conversaram entre si; outros desligaram os veículos e puxaram o freio de mão.

Até agora não sei o motivo da interrupção, mas quando ela passou, o trânsito fluiu bem até eu chegar em casa. Demorei o mesmo tempo dos outros dias, mas não me cansei, não me estressei. Assim poderiam ser todos os engarrafamentos: em vez de andar aos poucos, ficar parado para depois andar regular.

Isso me lembra uma idéia que gostaria de colocar aqui há muito, mas nunca tive oportunidade. Nos horários de pico, Brasília poderia fazer um rodízio. Exemplo: os funcionários do Setor Bancário saem às 17h; os da Esplanada às 18h; os da Praça do Buriti às 19h. Se saírem todos de uma vez, haverá o caos. Se saírem em doses homeopáticas, chegaram a casa em menos tempo e com menos desgaste.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brinde ao Detran-DF

O servidor público mais odiado talvez seja o do Detran.

Há diversos motivos para o tópico frasal acima: arbitrariedade nas autuações, carros do órgão descumprindo a lei, falta de guinchos. Contudo, hoje o Detran-DF mostrou-se correto.

Autuaram-me por excesso de velocidade, mas a foto não permitia identificar a placa. Recorri, e o departamento deferiu meu pedido.

Que o comportamento dos maus servidores não manchem a imagem dos bons trabalhadores.

sábado, 22 de agosto de 2009

Nós

"A tristura talqualmente correição de sacassaia viera na taba e devorara até o silêncio."

ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 41.


Conheço só uma obra que representa uma nação: Macunaíma; todos os brasileiros podem se ver no herói. Mário de Andrade é inferior a Machado de Assis e Guimarães Rosa, por exemplo, mas fez algo que eles não conseguiram ou não tentaram. As obras do primeiro são retratos fluminenses; as do segundo, retratos sertanejos. Scott Fitzgerald representa em O grande Gatsby o americano, mas restrito aos anos 20. Kafka e Saramago representam o pior do homem, não ele todo. Apenas em Mário de Andrade vejo o alcance da plenitude.

Outro motivo põe Macunaíma entre o melhor da literatura latino-americana: a representação da cultura indígena, marca da maior região do Brasil e infiltrada nos países vizinhos.

Para os leitores cegos pelo ocidentalismo globalizado, é impossível ler o livro sem dicionário. Recomendo o do Instituto Houaiss. Por outro lado, a leitura é mais fluente que a de Grande sertão: veredas, servindo inclusive como preparação para o livro de Guimarães Rosa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O óbvio ululante no esporte brasileiro

É claro que o Brasil não ganhou medalhas no mundial de atletismo.

César Cielo não competiu.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Duas chatas

A discussão se Dilma Roussef pressionou Lina Vieira é irrelevante. Lina teve a impressão - a impressão - de que Dilma pediu-lhe para melar investigação contra Sarney. Impressão sequer abre processo judicial.

Em vez de mexer com picuinhas, com ou sem intenções eleitorais, o Senado deveria fornecer mais momentos apoteóticos como a ira de Collor e a cantoria de Suplicy. Ou então deveria legislar a favor do Brasil.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A adiantação

Nos últimos dez anos uma mania de técnicos flagela o torcedor de futebol: a adiantação dos jogadores. O atleta não pode jogar uma temporada bem, mostrar recursos e repertório, que o chefe muda a posição dele, fazendo-o atuar mais avançado do que o de costume.

Segundo essa lógica, goleiro não pode ser goleiro, tem que ser líbero. Em vez de formar melhor os zagueiros, o clube exige que o goleiro corrija o trabalho deles e corte passes adversários. Assim, o guarda-metas joga adiantado e não raro toma gols em chutes fracos, mas indefensáveis quando se está mal-posicionado.

Hoje zagueiro com o mínimo de habilidade não pode ser zagueiro, como foi Beckenbauer, tem que ser volante ou lateral. Isso cria bizarrices como Alex Silva jogando no meio do Hamburgo, e os cruzamentos infrutíferos de Sergio Ramos na Espanha.

Hoje volante com bom passe não pode fazer a saída de bola, tem que ser o cérebro do time. Porém, mais à frente, são mais marcados e e obrigados a desempenhar funções que não sabem, como aconteceu com Hernanes e Íbson.

O meia-atacante, a posição mais rara do futebol, não pode organizar as jogadas, tem que ser o segundo atacante. Assim, os demais jogadores de frente e ele pegam menos na bola porque o armador não está onde deveria para recebê-la e passá-la.

Se um jogador vai bem em uma posição, deve ficar nela para manter o rendimento e não desperdiçar o potencial.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Câmara e Senado, meus amores

Adoro o Congresso Nacional.

Se no Brasil não houvesse tanta gente desamparada, eu preferiria que o parlamento brasileiro ficasse como está: corrupto como motorista com parente no Detran e secreto como caixa-preta. Essa combinação propicia situações tão divertidas que são quase essenciais à vida moderna.

Só falaríamos de novela e futebol não fossem o uso do vernáculo e os olhos esbugalhados de Fernando Collor. Ele une o drama de Shakespeare, a comédia de Molière e o pastelão de Mazzaropi. Ou seja, um talento.

O arranca-rabo entre Tasso Jereissati e Renan Calheiros é outro momento sublime. Vossas Desgracenças apenas disseram verdades, por que condená-los?

Na outra metade da laranja, os representantes do povo, aqueles que se deputam. Pergunto-me se os estrangeiros têm o divertimento de apelidar alguém de deputado do castelo ou de referir-se ao próximo por "aquele que se lixa".

Com a situação atual da sociedade brasileira, tais prazeres são macabros, admito. Mas permitam-me sonhar com o fim da desigualdade social e a permanência da graça.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O ficcionista sufoca o biógrafo

"[...] ao expandir seu poder, Napoleão expandia sua luta."

DUMAS, Alexandre. Napoleão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, p.91.


Ser um homem do século XIX é a vantagem e a desgraça de Alexandre Dumas ao escrever a biografia Napoleão. Vantagem por estar próximo aos acontecimentos, o que permite presenciar fatos e entrevistar pessoas inatingíveis a biógrafos do século XXI. Por outro lado, o escritor francês não desfrutou de avanços descobertos no jornalismo literário ao longo dos anos.

Viver o que os personagens da não-ficção vivem é uma das técnicas mais eficazes do jornalismo. Com ela experimenta-se sensações que o jornalista sequer imagina existir e que a fonte despreza ou esquece. A imersão permite falar de subjetividade com propriedade.

O problema está no estilo do autor, em época distante dos recentes estudos da biografia. Dumas assume em Napoleão o Romantismo e o ufanismo, fazendo do protagonista um herói idealizado, que tudo controla e tudo prevê. Isso hoje é condenável apesar de autores atuais cometerem o mesmo erro.

Além disso, a biografia é pequena. Jorge Luís Borges, escritor argentino, achava desnecessário páginas e páginas nas narrativas, bastava escrever o essencial. Contudo, se o essencial exigir escrever grande quantidade, assim seja. As 239 páginas de Napoleão sonegam trechos da vida do imperador.

E fique atento na leitura: há um erro histórico grave.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Suplício

Muitos assuntos entopem as minhas coronárias. Um que martela a minha saúde cardio-vascular nos últimos dias é a suplência de senador.

Analistas políticos, abutres intelectuais, adoram dizer que o suplente é senador sem voto. Errado. Na campanha cabe ao eleitor descobrir quem é o suplente do candidato porque o suplente elege-se junto, como um vice, grosso modo.

Em 2006 os cartazes do então candidato Joaquim Roriz traziam no canto inferior direito os dizeres: "suplente: Gim Argello". Então, Gim, como qualquer suplente, tem votos sim: os de Roriz.

Outra falácia é a de que suplente não deve satisfação à população. Deve sim. Todos que atuam no poder público devem: o empresário que venceu licitação, o concursado, o detentor de mandato.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A conclusão incomprovada

O frescor da noite abandonou-os ao entrarem na delegacia. Uma senhora negra, de avental que há muito não era branco, esquentava comida em um fogão de quatro bocas das quais três não funcionavam. O cheiro da comida reaproveitada impregnava-se nas paredes, sem rejunte, nas canetas, sem tinta, e nos funcionários, sem ânimo.

Escoltados por três policiais, sem armas, as quatro testemunhas adentraram a sala do delegado. Ele soprava tanta fumaça quanto a viatura sem manutenção. Usava os tocos dos cigarros como substitutos de pessoas na reconstituição de crimes. Ao perceber a chegada das testemunhas, apressou-se para finalizar o jogo de cartas que tinha na mesa, mas uma jogada sem pensar adiou a vitória contra si mesmo.

– Não liguem para a fumaça – tranquilizou os recém-chegados. – É para dissimular o cheiro da marmita dos presos.

O grupo compunha-se de três mulheres e um homem, duas delas ocuparam as cadeiras disponíveis diante do delegado. Ele colocou os documentos dos quatro em cima das cartas, sem desfazer o jogo, e conferiu as fotos 3x4 com os rostos. O RG da primeira a sentar-se dava-lhe dezoito anos, mas o delegado percebeu adulteração no documento, ela não tinha mais que dezessete. De cabelos oxigenados e seios tímidos, possuía o tronco maior que as pernas. O rosto ossudo ostentava maquiagem prateada nos olhos. A segunda a sentar-se tinha no documento uma foto de quando era criança, rindo como quem tem cócegas. Trinta anos depois o rosto da mulher assumia casmurrice permanente, como se uma cirurgia plástica tivesse imobilizado-lhe a feição. A mulher em pé era tão elegante na foto 3x4 quanto estava na delegacia. Loura natural, tinha a pele bronzeada encoberta por um casaco de pele e por maquiagem francesa. Os brincos dourados chegavam até os ombros. A menina de dezessete anos estava ansiosa; a senhora casmurra, impaciente; a loura natural, indiferente. A única testemunha homem estava incomodada. Tinha 1,60m, cabelo penteado para o lado e dedos inquietos. Vestia jeans e uma camisa preta com desenhos fosforescentes. Delegacia era-lhe sinônimo de encrenca, e o cheiro da marmita dos presos, preferível à fumaça do delegado.

– Tudo bem com vocês? – o delegado puxou assunto. Três deles responderam ao mesmo tempo, cada um à sua maneira.

– Tudo! – a testemunha de dezessete anos respondeu sem pensar.

– Tudo – a testemunha loura natural respondeu sem emoção.

– Tu…do – a testemunha homem respondeu sem convicção.

A testemunha casmurra não respondeu, apenas encarou o delegado como se ele fosse o interrogado.

– Sabem o motivo de estarem aqui?

Outra ruga desconfiada cortou a testa da casmurra; a de dezessete anos olhou o chão; o homem sussurrou:

– Sei não, seu delegado.

– Por causa de um assassinato – os quatro fitaram a loura natural, que proferiu tais palavras.

– Certo, madame ­– confirmou o delegado, interessado. – Por causa de um assassinato. Contar-lhes-ei parte da história. Espero que me contem a parte que não sei.

A testemunha de dezessete anos respirava com dificuldade. “Contar-lhes-ei”, o que é isso?

– Na semana passada ­– começou o policial – um advogado sai em seu carro de um motel nos arredores da cidade, conforme imagens da câmera de vigilância externa do estabelecimento. Não há ninguém no banco da frente, mas há no banco detrás. O carro sai do campo de visão da câmera. Horas depois ligação anônima diz à polícia que nas proximidades do motel há um carro parado no meio da rua, com o motorista inerte, há horas. Uma dupla de policiais encontra o veículo e constata o cadáver.

– Como posso ajudar o senhor delegado? – inquiriu de supetão a casmurra.

O delegado concentrou-se na casmurra. Sem tirar os olhos dela, abriu uma gaveta e pegou uma foto que colocou diante dos quatro. De repente, virou-se para a testemunha de dezessete anos e arrematou:

– Conhece esta pessoa?

A garota sentiu as entranhas gelarem com a pergunta inesperada. O homem na foto estava de olhos fechados e boca aberta como se dormisse sentado. A barba, crescida o suficiente para assumir a textura de lixa. A camisa social estava amarrotada, e a gravata, afrouxada. O pescoço estava inchado. Era um homem acima do peso, com a barriga por cima do cinto.

Diante do silêncio espantado da testemunha de dezessete anos, o delegado repetiu: – A senhorita o conhece?

– Eu conheço – a testemunha loura natural interrompeu de novo.

– Mais alguém?

– Eu… – manifestou-se a testemunha homem. – Sou eu quem o atende no motel. Os clientes antigos têm tratamento diferente. Só que eles não sabem que há um funcionário só pra eles nem sabem que na hora de pagar dá pra ver a cara deles num olho mágico disfarçado.

– De onde a senhora o conhece?

– É meu cliente ­– respondeu a loura natural. – Há muitos anos. Sou a dona do motel de onde ele saiu.

– Por isso vocês estão aqui ­– divagou o delegado.

– E por que eu estou aqui? – interrogou a testemunha casmurra.

– Porque na noite da morte – esclareceu o delegado –, no extrato bancário da vítima, consta o pagamento de R$ 34,50 para a AS Empreendimentos, valor igual à metade da pernoite no motel da empresária aqui presente – ele apontou a loura natural. – O horário do pagamento foi às 23h48. Analisando três dos principais bancos da cidade, com autorização judicial, encontramos os mesmos dados na conta bancária da senhora. R$ 34,50 à AS Empreendimentos, só que às 23h50. Que negócios a senhora fazia com uma empresa de empreendimentos a esta hora?

– O que o senhor quer insinuar? – contra-atacou a casmurra.

– Motéis registram nos pagamentos a cartão nomes fictícios de empresas para não denotar que o cliente frequentou o estabelecimento. Quero insinuar que a senhora esteve neste motel com o homem da foto e que pagou metade da conta. Estou errado?

A casmurra enfureceu-se, esperou alguns segundos para acalmar-se e respondeu:

– Não.

O delegado encostou-se na cadeira, relaxou os músculos e suspirou. – Falta explicar a presença da senhorita – referiu-se à testemunha de dezessete anos.

– Sei de nada não, doutor delegado.

– Os policiais responsáveis pela ronda na área onde fica o motel disseram que a senhorita trabalha ali, como acompanhante, é verdade?

– É como dá pra ganhar a vida, doutor delegado.

– Depois você vai me contar quem a obriga a se prostituir. Prostituição de menores é crime.

– Tenho dezoito anos, doutor delegado. Tá escrito aí na minha identidade.

– Algum de vocês sabe algo que possa esclarecer o caso? – o policial elevou o tom de voz.

– Sim – disse a casmurra. – Sei que não tenho nada a ver com isso e que o senhor pode me dispensar – fez uma pausa. – Fui pra cama com o morto – ela estranhou a própria fala e emendou –, que estava vivo. Conhecemo-nos naquela noite, numa festa. Fomos ao motel cada um no seu carro. Rachamos a conta e despedimo-nos. Aposto que a câmera de vigilância mostra a minha saída.

– Mostra – concordou o delegado. – Um carro igual ao seu e com a mesma placa saiu antes do advogado. Verifiquei os dados no Departamento de Trânsito – virou-se para a testemunha de dezessete anos. – A senhorita nada viu?

– Vi não, doutor delegado. Tava trabalhando.

O policial pensou, pensou e chamou um subordinado.

– Leve o documento desta senhorita para perícia. A idade está adulterada – a testemunha de dezessete anos fez menção de protestar, mas não teve coragem. – Os demais estão dispensados.

Minutos após todos saírem, o subordinado voltou.

– Alguma conclusão?

– Descobri o assassino.

– Quem?

– Pense: apenas um homem teria força para estrangular alguém forte, nem que seja pelo acúmulo de gordura, como a vítima. Qual foi o último homem em contato com o morto? Difícil será provar. Acho que será mais fácil fazer o criminoso confessar – o subordinado quis falar, mas o delegado antecipou-se à pergunta que não veio. – A garota do documento adulterado não cometeu crime, apenas é vítima de um cafetão qualquer; chamei-a para me certificar de que ela nada viu. A testemunha rabugenta não tem culpa, apenas transou com o advogado e foi embora. Quem tem acesso à suíte da vítima para entrar no carro dela e sair do motel pronto para matar? E quem teria inteligência e frieza para arquitetar plano como esse?

terça-feira, 28 de julho de 2009

O conselheiro

A convocação de Diego Tardelli não se justifica. Ele jogou bem em dez partidas no Campeonato Brasileiro. Dez jogos em sete anos de carreira não podem levar alguém à Seleção.

Dizem que Pato e Nilmar desperdiçaram a chance que tiveram. Claro... Robinho tem todas as chances, Robinho finaliza mal e tem todas as chances, Robinho perde a bola, não dá seqüência às jogadas e tem todas as chances. Pato e Nilmar jogam uma partida cada um e não marcam 48 gols: merecem a reserva.

Dunga convocou o Diego errado. A Seleção precisa do da Juventus. Outro injustiçado é Grafite. Campeão e artilheiro na Alemanha, foi preterido. Diz a nada confiável internet que Diego significa conselheiro. Quem sabe Tardelli chama Dunga para uma conversa de pé de ouvido e sussurra: convoque outro, convoque outro, convoque outro.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A ficção científica triunfará

Percorrer três copiadoras/lan houses e constatar que nenhuma abre disquete denota a proximidade do apocalipse. Em breve:

jogaremos o nome da pessoa amada em um software, e este redigirá um poema;

doaremos sangue por cabo USB;

depositaremos conteúdo de concurso público no cérebro por pen drive;

conectar-nos-emos a carregadores de bateria ao dormir.

A ficção científica triunfará, e os futuros literatos escreverão fantasias como pessoas que comiam carne em vez de tomarem pílulas.

domingo, 26 de julho de 2009

Inspirador superado

"Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação."

Narrador-personagem do conto O gato preto, in: POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 49.


Referência nas histórias de mistério e fundador da ficção policial, Edgar Allan Poe teve tanta influência sobre escritores que foi superado por eles. O americano tinha vasta inspiração e imaginação, mas não sabia o que fazer com elas, como na coletânea Histórias extraordinárias.

Viveu quarenta anos, existência breve como a dos poetas boêmios do Romantismo. Não por acaso escreveu dramas cheios de pedidos ao sagrado, de exclamações e de morte. Não chega a ser terror, como Mary Shelley, apesar de o estilo dela aparecer em Poe; trata-se de narrativas góticas, sombrias, que privilegiam cenários escuros, frios e húmidos. Nesse âmbito, Allan Poe renasce em autores como Stephen King.

Por outro lado, não menos macabro, Poe teve virtude criativa ao conceber Auguste Dupin, intelectual francês que faz as vezes de detetive. Sem Dupin não haveria Sherlock Homes ou Hercule Poirot. Entretanto, os méritos param aqui, pois Conan Doyle e Agatha Christie escreveram ficção policial mais envolvente e intrigante, dando mais elementos para o leitor descobrir o assassino e com soluções mais verossímeis.

Recomendo contos de Allan Poe como O barril de Amontillado, O gato preto e O poço e o pêndulo. Em outros textos, prepare-se para pirotecnias no enredo. Não se assuste se alguns deles forem mais apropriados a engenheiros da NASA do que a alguém apenas interessado em uma boa história de suspense.

sábado, 25 de julho de 2009

O que Dilma tem e o PSDB não tem

O vice-presidente da República, José Alencar, lida tão bem com a doença que receberia votos e mais votos nas eleições de 2010. A ministra Dilma Rousseff prefere não explorar a própria enfermidade.

A candidata de Lula não usa maneiras de ganhar simpatia devido à fragilidade imposta pelo linfoma, como aparecer com os parentes e amigos, sorridente, durante o tratamento. A estratégia continua associar-se ao PAC e ao presidente e defender o PMDB.

Além disso um fator silencioso - mas evidente, percebido por Lula - impulsiona a candidatura dela: ser mulher. A novidade na presidência ajudou Barack Obama, o negro. O mesmo efeito pode favorecer Dilma. Roseana Sarney colhia tais frutos em 2002 até ter a candidatura fulminada por adversários.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sobram três

Colegas,

já leram o meu blog? Ainda não?

Se preferirem, leiam também os blogs sugeridos no menu ao lado.

Este post é piada interna. Se não quiser ler aqui piadas internas, comente.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Silogismo

Estudante tem que ser bom em raciocínio lógico, ainda mais quando os pais pressionam para passar em concurso público:

Estudantes que participaram do congresso da UNE causam prejuízos a escolas públicas do DF;

A UNE paga a conta;

A principal fonte de verba da entidade é o governo federal;

O contribuinte abastece os cofres do governo federal;

Logo, o contribuinte paga a irresponsabilidade de estudantes do congresso.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Clássico de mulherzinha

"São muitos os meus defeitos, mas nenhum de compreensão, espero. Quanto a meu temperamento, não respondo por ele. É, segundo creio, um pouco ríspido demais... para a conveniência das pessoas. Não esqueço com facilidade tanto os disparates e vícios dos outros como as ofensas praticadas contra mim."

Mr. Darcy, em AUSTEN, Jane. Orgulho e preconceito. São Paulo: Martin Claret, 2008, p. 57.


Se você concluiu o ensino médio e quer histórias de amor, donzelinhas puras e mancebos poderosos, não leia Crepúsculo, Melancia ou Bridget Jones. Tais leituras não coadunam com a maturidade intelectual. Você só deve lê-las quando consumir o que a literatura mundial há de melhor. O período pós-colégio e pré-li-tudo-o-que-o-mundo-escreveu-de-bom é privativo dos clássicos, dos ensaios, das biografias e dos livros-reportagem.

Isso não impede a degustação de romantismo. Alexandre Dumas, José de Alencar e Victor Hugo estão aí para isso. Quem preferir algo mais próximo de novelas da Globo, pode recorrer à fonte inspiradora delas: Jane Austen.

Orgulho e preconceito se encaixa nos três requisitos do clássico: criatividade (a teledramaturgia da Globo está duzentos anos defasada), a verossimilhança (reconstrução de uma época) e o estilo (maneira de escrever própria). Os personagens, planos, atendem aos leitores preguiçosos; o estilo elegante, formal, atende aos leitores exigentes.

Não se esqueça de que narrativa boa não é só a empolgante, lida em pouco tempo, mas também a digerida devagar, em que o leitor interage com a obra, pensa, e não a engula como fast-food.

domingo, 19 de julho de 2009

Frieza brasiliense

Ele estava sentado em uma cadeira de braço, aguardando atendimento. Não dava atenção aos transeuntes, e vice-versa. Dois rapazes aproximaram-se, um gordo e um magro. O gordo perguntou:

- Você mora aqui?

Em fração de segundo, ele pensou nas possibilidades de escapar. Soltou um doloroso:

- Sim.

Impaciente, o magro antecipou-se ao amigo e perguntou, com voz rouca:

- Sabe onde tem uma farmácia por aqui?

Primeiro veio-lhe a ânsia de corrigi-lo. O verbo ter não se usa no sentido de haver. Porém, encheu-se de elegância para responder a quem minutos depois ele descobriu ser alagoano.

- Não.

- Tô morrendo aqui nessa cidade, que só tem mato, escuridão e nenhuma farmácia! - bufou o rouco.

- Soube de uma farmácia na 403 - interveio o gordo. - É perto?

- De ônibus sim, de pé não - respondeu ele.

- Mas que raio de cidade! - o rouco.

- Onde tem um ponto de ônibus? - o magro.

- Suba nesse sentido. A primeira via que encontrarem, é a L3; a segunda, paralela, é a L2. Lá há uma parada.

- Mas essa #$¨%@$%# é muito longe.

- Obrigado.

- De nada.

- @*&¨%#(*&¨$)@*&¨*&#¨$.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A fraternidade do homem cordial

Na semana de aniversário da tomada da Bastilha, exemplo para as tomadas de poder por parte das massas, comemoremos pelo menos um dos ideais da Revolução Francesa.

Se a liberdade está em baixa, como na Venezuela e em Honduras, e a igualdade é sonho distante, como em países de bandeira verde e amarela da América do Sul, celebremos a fraternidade.

Desde os anos 30 Sérgio Buarque de Holanda nos fala do homem cordial, em Raízes do Brasil, o do tapinha nas costas, do jeitinho brasileiro, da solução dos problemas pela amizade.

O homem cordial não nega favor, pelo contrário. Nada como ter amigos no Detran, na Justiça, no Congresso.

domingo, 12 de julho de 2009

Eles falam demais

O presidente Lula e o atacante Ronaldo têm muito em comum. Ambos simpatizam com o mesmo clube, são populares e estão acima do peso.

Nos últimos meses, ambos também desataram a falar sem pensar no que dizem. Crêem que o sucesso permite-lhes fazer o que quiserem.

As reclamações do jogador quanto a estratégias do clube, a cutucada na torcida do Flamengo e a insinuação de que o próprio Lula intermedeia conversas com empresários a favor do Corinthians arrepiam qualquer assessor de imprensa.

A defesa do político em favor de Sarney, o prestígio dado a Severino Cavalcanti e as declarações indevidas na política ambiental deveriam arrepiar qualquer eleitor.

Mal social

Descobri a causa dos problemas da humanidade: os 10%.

Sempre que me recuso a pagar 10% a mais na conta a feição das pessoas mudam. Elas se entristecem, se deprimem, se zangam.

Contudo, não cedo à pressão social para estimular a especulação. Na relação de compra e venda, o prestador de serviço diz o preço, o cliente paga. Simples.

Basta desconhecer o lucro que o comércio tem no produto, querem extorquir mais?

sábado, 4 de julho de 2009

Dependência americana

"De repente, esquecido o grão, o rosto contorcido, ele correu para pegar uma bacia de metal cheia de cinzas que equilibrara numa parte do muro quebrado. Era só o que restava de um exemplar do Corão, que segundo ele estava em sua família havia gerações.

- Tiranos! Tiranos! - gritou, referindo-se ao Talibã. - Este é o livro de Deus. Matem a gente, se têm de matar, mas não queimem nosso livro santo."

Afegão cuja aldeia o Talibã bombardeou , na matéria de John Burns, publicada em The New York Times, de 27 de outubro de 1997 e reproduzida em LEWIS, Jon (org.). O grande livro do jornalismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, pp. 366-7.


A seleção feita por Jon Lewis ilustra a arrogância da cultura anglo-americana. Ao montar seleção das melhores reportagens da história do jornalismo, o organizador escolheu 55 textos, sendo 54 de jornais americanos ou britânicos (o restante era soviético). E teve a petulância de intitular a obra como O grande livro do jornalismo.

Há imprensa após as fronteiras da língua inglesa. Gabriel García Márquez (Colômbia), José Hamilton Ribeiro (Brasil) são apenas alguns exemplos de profissionais de sucesso, e Le Monde (França) e El País (Espanha) são apenas alguns exemplos de publicações importantes.

Também é duvidosa a qualidade de escolhidos. Foram aprovados trabalhos como o confuso A batalha de Balaclava, de W. H. Russel, e jornalismo de fofoca como O casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier, de D. Edgar. (Mereceu espaço também Hunter S. Thompson, criador do jornalismo gonzo, em que é permitido inclusive inventar trechos da narrativa. Isso, nesta Cova, não é jornalismo). Ficaram de fora autores como Gay Talese, que escreveu uma das referências do jornalismo: Frank Sinatra está resfriado.

Contudo, há matérias imperdíveis pela qualidade da escrita e pela importância temática. As sobre o impeachment de Richard Nixon mostram bastidores da queda do republicano. A de uma jornalista que se passa por coelhinha da Playboy denuncia o tratamento vulgar que as contratadas recebiam. A sobre um espancamento de um negro exemplifica a cultura racista nos EUA.

O livro conta também com clássicos como Charles Dickens e Winston Churchill. A auto-suficiência da cultura de língua inglesa mancha tanto talento.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Correções históricas

O golpe militar em Honduras é oportunidade para a correção de dois dos maiores erros históricos: a culpa da escravidão e a participação americana em golpes semelhantes ao longo do século XX.

O presidente Lula, com interesses eleitorais, assumiu em nome do país a dívida com os negros escravizados. Porém, o débito deve ser pago pelos colonizadores europeus, que demandaram escravos, e pelos negros africanos caçadores de negros, que os ofertaram. A responsabilidade não é dos brasileiros.

Do mesmo modo, o presidente Obama, tão inteligente e bem-intencionado, deveria pedir desculpas em nome dos EUA pelo apoio que o país deu a golpes militares na América Latina em vez de defender a democracia como agora em relação a Honduras.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sangue ainda lava a honra

O hábito antigo de que honra se lava com sangue permanece na contemporaneidade. A diferença está em quem empunha a espada adversária. Antes o duelo travava-se contra o pai da moça de donzelice roubada; o assassino de amigo ou parente; o inimigo ideológico. Hoje o embate se dá contra a opinião pública.

Após morrer, Michael Jackson tornou-se o deus da música, o reinventor da arte. Os fracassos recentes dos discos encalhados nas lojas e as dívidas ficaram em segundo plano. (Assim é fácil ficar rico: pegar dinheiro dos outros e não devolver).

Exemplo do ungido pela morte e salvo das garras da opinião pública é Getúlio Vargas. O ditador proto-fascista, convencido o suficiente para se colocar na história, tornou-se mártir adiando em dez anos o golpe militar no Brasil. Os desmandos do Estado Novo deram lugar à imagem de grande estadista.

No caso Michael Jackson formou-se a espiral do silêncio, como o repórter Gabriel Castro, da Rádio CBN, chamou-me a atenção. Essa teoria diz que a opinião comum de um grupo numeroso e/ou influente inibe a manifestação de idéias discordantes. Não se pode achar a música de Michael Jackson ruim sem represálias.

Resta-me o desprazer de pela primeira vez concordar com Diogo Mainardi. A música de Jackson é cafona, comercial e temporal.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vai tu mesmo, sem Robinho

O Brasil fez boa Copa das Confederações. Os dois piores jogos do time, contra Egito e África do Sul, foram situações normais: relaxamento após fazer 3 a 1 e dificuldade contra o time da casa.

Dunga tem méritos, o principal é escutar a imprensa esportiva e a torcida nas escalações de Ramires e Daniel Alves. Se trocar Robinho por Pato e Gilberto Silva por Anderson, o time decola de vez.

A ausência de Diego e Fábio Aurélio são preocupantes. O primeiro merece a vaga de Júlio Baptista, o segundo merece chance na lateral-esquerda.

Felipe Melo jogou muito na final e Luís Fabiano assumiu a vaga de centro-avante em definitivo. Se Lúcio jogar até a Copa do Mundo o que jogou nos últimos jogos, cala-me quando eu disse que ele não podia ser mais o titular da zaga.

Ainda tivemos o prazer de assistir contra os EUA ao Brasil pressionar o adversário. Só não entendo como o time levou dois contra-ataques se temos um carregador de piano, aquele cuja função ninguém entende, que está ali só para proteger a defesa.

domingo, 28 de junho de 2009

A companhia dela

O silêncio afogava-o no estacionamento cheio de imensidão até que o barulho da porta do carro fechando o restagou à superfície da realidade. Impossível não denunciar a própria presença, pois o eco dos movimentos funcionava como radar.

Ela sabia que ele ali se encontrava; seguiu-o. Ele desconfiava não estar só, mas afastou tal idéia, devia ser apenas impressão. Metros adiante do carro, surgiu a primeira alma viva: propagandas na tela de um caixa eletrônico. Ela escondeu-se atrás da máquina.

Dirigiu-se às escadas. Regozijou-se ao ver a capela aberta, caso precisasse, apesar da hipótese de haver ali algo pior que demônios. Subiu os degraus pressionado pelas paredes como se saísse de uma catacumba. Ela fez o mesmo trajeto logo depois.

Havia apenas os dois no andar de cima, ele sem ter certeza dela. Apesar da sensação de vigilância, o que mais lhe incomodava era a parede externa do prédio, espelhada. À noite, quem está dentro do edifício vê o próprio reflexo na parede espelhada e quem está fora vê tudo lá dentro.

Ele girou as chaves na maçaneta da sala, fazendo barulho tanto quanto havia silêncio. Aprumou-se, ligou o computador caso houvesse emergências e retirou da sacola manuscritos milenares para entretê-lo. Às 2h, o sono minava-lhe a concentração. Dormiu.

Acordou às 3h e viu que tudo estava em ordem. Dormiu até as 4h, tudo estava em ordem. Dormiu até as 5h, em ordem. Acordou em definitivo às 6h, apreciou a aurora e leu um pouco mais. Logo soaram as badaladas do fim. Juntou o que trouxe e partiu.

Ela nada fez.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Oba-oba

Em cinco meses de governo, Barack Obama corresponde às expectativas. Demonstrou vontade política na questão de Guantánamo, elaborou projeto para conter a libertinagem no mercado financeiro, reconheceu o fracasso da Guerra no Iraque.

Talvez não seja brilhantismo de Obama, talvez qualquer presidente na atual circunstância tomaria as mesmas medidas. Fato é que o comportamento do presidente americano não seria aceito no pós-11 de setembro, mas é o necessário após dois governos da família Bush.

Talvez este coveiro precipita-se, como o Brasil fez no começo do governo Collor.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ninguém segura

As manchetes sobre o Senado escancaram defeito da República brasileira: a tripartição dos poderes. O princípio de freios e contra-pesos delineado pelo frânces Montesquieu não breca o legislativo.

O Congresso Nacional pode derrubar vetos do presidente da República, que indica os ministros do Supremo Tribunal Federal, que são sabatinados pelo Congresso; poder-se-ia citar outros exemplos de controle do Executivo e do Judiciário. Contudo, na última instância, ninguém segura o parlamento.

Deputados e senadores estipulam o próprio salário. Se o TSE elimina a farra de vereadores, o Congresso aprova lei a favor dela. Quem julga os parlamentares nos processos de desvio de conduta? Eles próprios.

Em curto prazo, apenas o eleitor pode dar um basta. Comecemos pelos dinossauros José Sarney e Renan Calheiros e pelos deputados de alcunha engraçada, o do castelo e o que se lixa.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornalismo de romance

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã".

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 9.


Não é spoiler, é o estilo de Gabriel García Márquez de começar romances: com impacto. Crônica de uma morte anunciada reflete os mitos verídicos da vida desse colombiano que escreve criativo como ficcionista e atento como jornalista. Muito da obra vem das experiências do autor, basta compará-la com a auto-biografia Viver para contar.

Se Truman Capote cunhou o romance de não-ficção, Crônica... é o jornalismo de romance. O narrador-personagem investiga e reconstrói um crime e os costumes provincianos de uma terra onde se escreve justiça com sangue e onde a verdade é secundária perante as aparências.

Sem a complexidade e a extensão do ápice Cem anos de solidão, o livro serve como introdução aos clássicos da literatura e, somado a Memórias de minhas putas tristes e Relato de um náufrago, como base para apreender a saga dos Buendía.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Limbo retórico

Sou a favor da obrigatoriedade de diploma de jornalismo para repórteres, não para jornalistas.

Todo repórter é jornalista, mas nem todo jornalista é repórter, pode ser um articulista. O repórter encontra fatos e explica-os ao público; o articulista opina. Este deve conhecer o assunto de que trata, o que só terá com qualidade no ensino superior. Aquele deve conhecer métodos de entrevista e de pesquisa, o que só terá com qualidade no ensino superior de jornalismo. Ambos devem dominar a Língua Portuguesa.

(Excluamos as exceções como auto-didatas geniais).

O principal argumento contra a exigência, a liberdade de expressão, não passa de limbo retórico, de pretexto. Quando se pretende melhorar o jornalismo, levanta-se a blindagem oportunista da liberdade. Desejar qualificação dos profissionais da imprensa não atenta contra a ela, atenta contra a libertinagem.

Exigir o diploma dos repórteres não significa não mexer nos cursos de jornalismo. O da Universidade de Brasília por exemplo, um dos melhores, ensina mais a executar do que a pensar.

A decisão do Supremo Tribunal Federal não deve alterar a iniciativa privada, mas conduzirá a comunicação pública ao pandemônio. As assessorias de imprensa estarão à mercê dos concurseiros profissionais.

Caiu o anão errado

O São Paulo deveria ter mantido Muricy Ramalho. A melhor estratégia é continuidade, ainda mais para quem comprovou talento com a conquista de três campeonatos nacionais seguidos.

Alex Ferguson, a 20 anos treinador do Manchester United, não ganha a Liga dos Campeões todo ano.

Tenho inúmeras críticas a Muricy: a desastrosa e interminável titularidade de Richarlyson; a preferência pelo caneleiro Eduardo Costa; o padrão tático de jogo aéreo.

Contudo, a fase do time é culpa também dos jogadores: Washington, mimado; Hernanes, apagado; Dagoberto, improdutivo.

O ideal seria juntar os cacos com o treinador, esperar a turbulência passar. Nomes como Nelsinho Batista e Abel Braga são de nível inferior ao de Muricy. Paulo Autuori, Felipão e Luxemburgo estão inacessíveis.

Pena Dunga resistir mais que Zangado.

sábado, 13 de junho de 2009

Nem sempre Deus porá a mão no fogo

"Eis que estamos de novo no limite do bom senso, exatamente onde os seres humanos perdem a razão. Por que fazes acordo conosco se não podes cumpri-lo? Desejas voar e não te sentes seguro ante a vertigem? Nós que te procuramos ou tu que nos invocaste?"

Mefistófeles, o inimigo da luz, em Fausto, de Goethe. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 203.


A poesia de Fausto é mais do que alusão ao embate entre Deus e o diabo, o sagrado e o mundano, a vida e a morte. O pacto entre Fausto e Mefistófeles representa nossas escolhas.

O enredo parafraseia a aposta entre Deus e o demônio sobre a conduta de Jó, personagem bíblico dono de posses, chefe de família e temente ao Senhor. Satã desafia o orgulho de Deus sobre tão valoroso fiel, propondo-lhe atormentar Jó a fim de conferir-lhe a fé. Deus aceita o embate, e Satanás destrói a vida de Jó, que permanece temente a Ele.

Fausto também é posto em prova. Culto, polivalente e ambicioso, sofre as tentações do diabo. Mas Fausto é Jó às avessas, fraco de espírito, de caráter e de fé. Insatisfeito com a própria vida, decide suicidar-se. Mefistófeles o impede. Atencioso com as frustrações do protagonista, o demônio propõe lhe servir na vida, em troca de vassalagem na morte.

Mais do que os fantasmas da Idade Média e os da humanidade, a obra do escritor alemão Goethe questiona o leitor sobre o que ele está disposto a fornecer em troca de dinheiro, juventude e amor.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Vô casmurro

José Sarney é péssimo avô, não procura se informar sobre a vida dos netinhos.

Desconhece que um deles participa de nepotismo cruzado no gabinete do senador Cafeteira, recebendo R$ 7 mil por mês, sem ter formação acadêmica.

Virada melhor que goleada

O Brasil jogou melhor contra o Paraguai do que contra o Uruguai.

A defesa mostrou que joga bem com um cabeça-de-área, Felipe Melo. Ou seja, Gilberto Silva deve ser trocado por alguém mais habilidoso que preencha o meio-campo: o onipresente Ramires, por exemplo, que não pode ser preso na direita como Dunga insiste em fazer. Jogador bom movimenta-se por todo o campo.

Não gosto de Felipe Melo, mas ontem ele fez a melhor partida pela Seleção. Exceto quando ele julgava ser o Gérson, desarmou com firmeza e deu excelente assistência no gol de Nilmar, funções do bom volante. Se Hernanes não recuperar a boa fase, reconheço que Felipe Melo merece a titularidade.

Entretanto, não se pode embarcar no papo da Globo, que não cobre a Seleção de forma crítica. Dunga, pela inexperiência, não enxerga erros básicos, mas graves. O maior deles é o fato de os jogadores atuarem afastados um dos outros. Quando um toca a bola, foge do companheiro, deixando-o sem opção.

PS 1: Daniel Alves prova ser melhor que Maicon.

PS 2: Apesar da difícil finalização no segundo gol, Robinho merece a reserva, pois nos últimos jogos desperdiça inúmeras jogadas de ataque, seja ao perder a bola, seja ao não saber o que fazer com ela.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Como escritor, ótimo goleiro

"Mário Sérgio me chamou para uma conversa reservada:

- Vem cá, vieram me falar que você não gosta de mim, que não queria que eu fosse contratado, que eu sou filho da puta...

Não contra-argumentei a ordem de parar de bater faltas, mas aquela segunda conversa era demais.

- É simples - respondi. - O senhor traz pra cá agora quem disse isso, e a gente comprova se é verdade ou não."


Rogério Ceni, em Maioridade Penal. São Paulo: Panda Books, 2009, pp. 77-8.


Maioridade penal é tão imaturo quanto um adolescente de dezoito anos recém-completados. Se a proposta do livro é servir de memórias para Rogério Ceni, objetivo cumprido, temos um diário. Se a idéia é a de fazer jornalismo, como a profissião do co-autor André Plihal sugere, nada feito.

Com capítulos curtíssimos e discurso em primeira pessoa, em nome do goleiro, a obra frustra por manter lacunas e sonegar detalhes da carreira de Rogério Ceni. Em vez de explorar o material disponível na imprensa e inúmeras fontes vivas e lúcidas, André Plihal apenas conta as versões do protagonista. A oportunidade de retratar torneios, situações e personagens que comporiam o contexto da carreira de Ceni foi perdida. Maioridade penal é auto-promoção. Aliás, a concepção é precipitada. Feito antes de Rogério pendurar as chuteiras, o livro não conta a história da pior contusão do goleiro, ocorrida após o lançamento.

Se os autores queriam sair bem na foto, ótimo, não se discute o estilo adotado. Porém, seria mais interessante para o registro histórico e para os torcedores de futebol trabalho mais crítico, encorpado e investigativo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O galático e o folclórico

Duas notícias martelam a minha cabeça quanto a futebol: Kaká no Real Madrid e Obina no Palmeiras.

A transferência do primeiro rumo à Espanha foi boa para os madridistas e os milanistas, mas não para o jogador. O clube espanhol contratou o melhor meia-atacante do mercado, o clube italiano arrecadou dinheiro necessário. Por outro lado, Kaká vai jogar em um time desorganizado no campo e na diretoria, sem zagueiros, volantes e presidente de qualidade.

A ida do segundo rumo a São Paulo é catastrófica para os porcos. A lerdeza nas contratações do Flamengo é recompensada com as negociações de jogadores fracos, vide a saída de Souza para a Grécia meses atrás. Enquanto o flamenguismo exigia de Obina apenas ser motivo de piada, ele dava conta do recado; quando quiseram um centroavante, quebraram a cara.

domingo, 7 de junho de 2009

Veja se seu parlamentar tem ficha-suja

Imperdível a lista do Congresso em foco de parlamentares processados no Supremo Tribunal Federal.

O coveiro defende que se o candidato for condenado em primeira instância, não merece voto. Proposta do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) determina que essa condenação impeça candidatura. Aqui há presunção de culpa.

O senador Pedro Simón (PMDB-RS) tramita projeto em que candidatos processados não podem se candidatar, o que é exagero, pois há o risco de inocentes serem barrados. Aqui há presunção de inocência.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pormenores da imensidão

Vitória. Há leituras com as quais devemos brigar a fim de terminá-las. Vale a pena o desafio de Grande sertão: veredas.

Guimarães Rosa cumpre os requisitos do melhor da literatura. Primeiro, acima de tudo, monta narrativa misteriosa que instiga o leitor a virar a página. Segundo, escreve com estilo próprio, fugindo do simplista, como se o básico não satisfizesse. Terceiro, extrapola os limites do entretenimento e põe-nos a pensar. O autor discute o humano e o sobre-natural, a sociologia e a política, o amor e a guerra.

Não basta vontade de ler o livro, é preciso esforço. As primeiras oitenta páginas sondam o leitor para ver se ele está disposto a chegar à página 600, a última. Senão, nada feito: o preguiçoso perder-se-á nas palavras de Riobaldo, o narrador-protagonista. Contudo, superada a primeira barreira, surge a recompensa.

O diálogo em forma de monólogo entre Riobaldo e o forasteiro - ou seja, o leitor - é tijolo sem capítulos, sem interrupções. Enquanto a linguagem regionalista não se incorporar ao cérebro, o romance é indomável. Dicionário ajuda; nem tudo de diferente em Guimarães Rosa é neologismo. Compreendida a leitura, as dificuldades são suportáveis. Nonada.

Recomendo a edição comemorativa da editora Nova Fronteira, de 2006, por trazer elucidativo prefácio de Paulo Rónai.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Os donos do poder

O sumiço do avião da Air France intensificou a presença dos urubus intelectuais no noticiário: os especialistas.

Em todos os veículos de informação pipocam detentores da verdade propalando o que deveria ser feito a respeito de tudo, desde o tempeiro da comida da tripulação a detalhes no projeto original de Santos Dumont.

Preguiçosos ao apurar, jornalistas encostam-se no sabe-tudo para embromar horas e horas, páginas e páginas de conteúdo. Ou então as chefias de redação pressionam tanto os repórteres que espremem deles material pouco informativo e muito especulativo.

Exercício de retórica

Um dos argumentos preferidos da oposição ao petismo era o de dizer que Lula governou apenas em marolinhas.

Sendo o Brasil um dos países mais fortalecidos perante a suposta atual crise internacional, o discurso terá de ser outro.

Perdemos com a vitória de Brasília

Minha vaguíssima esperança de Brasília não sediar a Copa de 2014 foi para as cucuias. Mesmo que os R$ 400 milhões a serem desembolsados na reforma do Mané Garrincha venham da iniciativa privada, está aberta a possibilidade de corrupção na obra. A ocasião faz o ladrão.

O Pan de 2007, no Rio de Janeiro, mostrou que o Brasil não tem estrutura e cultura para organizar eventos tão grandiosos. O governo federal gastou R$ 3 bilhões então.

Além disso, assim como o legado do Pan tornou-se herança maldita, o legado da Copa - principalmente em Brasília, por não ter tradição no futebol - será desastroso. O que fazer com um estádio de primeiro mundo em terra de times de quinta?

PS: a birra das cidades derrotadas é infantil.

domingo, 31 de maio de 2009

1 centavo

Ontem fui a um restaurante que serve rodízio. Ao pedir a conta, o garçom trouxe todo o consumo descrito:

2 sucos de laranja.................. x reais
1 água..................................... y reais
2 rodízios................................ z reais

O surpreendente veio em seguida. A conta trazia o que consumimos no rodizío. Até aí, tudo normal, exceto pelo o que estava na frente de cada alimento:

1 alimento com queijo, presunto e tomate............ 1 centavo
2 alimentos com carne de sol e manteiga.............. 1 centavo
1 alimento com banana e chocolate........................ 1 centavo

Essa brincadeira rendeu nove centavos cobrados por algo já pago, afinal era rodízio. Ou seja, eu paguei preço fixo para comer o quanto quisesse, sem ter que pagar por cada prato.

Nove centavos, fiel leitor. Se o restaurante atender cinqüenta mesas por dia a uma média de dez centavos por conta, arrebatará 5 reais. Se o estabelecimento funcionar cinco vezes na semana, são 25 reais. Multiplique por 4 semanas = 100 reais por mês cobrando um centavo por item do rodízio.

Os 10%, opcionais, ficaram em 3 reais. Paguei os nove centavos, mas não paguei os 10%.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Alternativa ao sistema eleitoral brasileiro

O sistema eleitoral exposto a seguir não é novidade, mas é desconhecido no Brasil: voto distrital.

Em vez de votarmos em representantes das unidades federativas, deveríamos adotar sistema distinto. Dividir-se-ia as cidades em distritos eleitorais (não confundir com os distritos administrativos existentes); cada distrito elegeria um parlamentar.

Exemplo: no Distrito Federal, poder-se-ia agrupar Taguatinga, Vicente Pires e Águas Claras em um distrito. As três elegeriam um representante que prestaria contas a elas. Assim, é mais simples cobrar resultados do escolhido, pois se trata de uma pessoa (no modelo atual, todo o DF elege 32 deputados, entre federais e distritais).

Outra vantagem do sistema distrital é a de depor o parlamentar em caso de desvio de conduta ou incompetência. Poder-se-ia usar x% dos eleitores para aprovar a deposição e convocar novas eleições. Prática semelhante é usada na proposição de iniciativa popular.

O eleitor precisa de meios de controlar o representante.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Explodir os coleguinhas

A encrenca nuclear reavivada pelos testes norte-coreanos só serão resolvidos se os donos da verdade abdicarem do mesmo tipo de armamento e reconhecerem erros.

Palavras-chave: Estados Unidos, países da União Européia, Hiroshima e Nagazaki.

Ele pode esperar

O terrorismo sob ótica árabe é a proposta de O atentado, do argelino Yasmina Khadra. Por isso, a princípio, a obra valeria a pena para ocidentais americanizados, como os brasileiros. Contudo, a menos que se tenha lido tudo o que o melhor da literatura mundial tenha a oferecer (incluído o árabe As mil e uma noites), O atentado pode esperar no fim da fila.

Khadra opõe, por meio do protagonista (Amin Jaafari) - israelense de origem árabe -, o individualismo ocidental ao nacionalismo extremista. Amin busca ao longo da história explicação para a transformação da esposa em mulher-bomba. As respostas são dignas de vídeos do Bin Laden. Se o intuito da obra é a visão unilateral do terrorismo, objetivo cumprido. Porém, se houvesse o confronto com os seguintes questionamentos, o livro seria melhor.

Primeiro, os personagens pró-terrorismo, que argumentam serem pessoas de bem, não explicam o motivo de explodir inocentes (exceto o óbvio de causar pânico). Segundo, esses mesmos personagens demonstram desprezo à vida dos próprios colegas de causa; em um diálogo, um deles explica a Amin que a esposa não devia se suicidar pois ela era mais importante viva, ou seja, há pessoas que são mais importantes mortas. Se o ato kamikaze é tão nobre, por que os líderes terroristas não se matam?

Outro problema está no tempo verbal predominante na escrita. Khadra, pelo menos na tradução da Sá Editora, usa o presente do indicativo com narração em primeira pessoa. Então, o narrador diz "eu como", "eu acordo", "eu ando". Assim, há dois Amins conflitantes: o que narra enquanto o outro age, provocando incoerência. É diferente de narradores-personagens que contam histórias após elas terem acontecido, como Bentinho, de Dom Casmurro, ou Carraway, de O grande Gatsby. Nestes o personagem é um só.

domingo, 24 de maio de 2009

Ausência

Perdoem-me, fiéis leitores, as reiteradas ausências. Exige-se do blogueiro que ele cumpra a parte mais chata da vida: obrigações.

Cada vez tenho menos insumos para escrever - ler jornais e reparar no dia-a-dia. Contudo, felicito-vos que tal condição é passageira.

Acima de tudo, respeitem os mortos. Não deixem de visitar este cemitério de idéias.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Eternizados

Fiéis leitores, não reparem eventuais ausências do coveiro. Não sumi.

Acompanhando o noticiário, delicio-me com o caso do deputado que se lixa para a opinião pública. Tomara que o eleitorado gaúcho, que cometeu a gafe de elegê-lo sete vezes, lixe-se para ele. Só não peço para linchá-lo por questão de urbanidade.

Mas o interessante é o tratamento que ele receberá até o fim da vida. "O deputado Sérgio Moraes, aquele que diz estar se lixando para a opinião pública, ..." "Sérgio Moraes, de 142 anos, aquele que quando era deputado disse..."

Outro que tem marca é o também deputado Edmar Moreira, o dono do castelo. José Adalberto Vieira da Silva é o assessor do PT com dólar na cueca. O atacante Ronaldo tem que rezar para ninguém o superar como maior artilheiro das Copas, porque senão corre o risco de ser o pegador de travestis.

Pelo menos temos o direito de se divertir e reclamar. Por isso que qualquer democracia é melhor que qualquer ditadura.

sábado, 9 de maio de 2009

Pior que a ditadura militar

O sistema de voto de lista fechada é coisa de ditadura. De 1964 a 1984 o Brasil não escolhia o presidente da República, como muito parlamentar quer fazer com o legislativo de hoje.

O espantoso é que nas eleições legislativas da ditadura militar, o eleitor escolhia o parlamentar, como na vitória esmagadora do MDB em 1974.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Sete refrigerantes têm substância cancerígena, revela pesquisa

Da Folha Online, sendo os principais:

Sprite Zero, Fanta Laranja e Sukita.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Retórica

A História do Brasil é recheada de frases inesquecíveis.

No Império, D. Pedro de Alcântara sofismou: "Se é para o bem do povo e felicidade geral da nação, diga que fico". A bandeira de Minas Gerais ostenta: libertas, quae sera tamen. A ditadura militar exigiu: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

A frase da contemporaneidade é "vamos averiguar as informações". Senadores acusados de corrupção: "vamos averiguar as informações". Flanelinhas cobram dinheiro por espaço público: "vamos averiguar as informações". A reforma ortográfica foi inútil: "vamos averiguar as informações". Dunga não tem condição de ser o técnico do Brasil: "vamos averiguar as informações".

Em vez de as autoridades dizerem ações de curto prazo para depois apresentar as de médio e longo prazo, deixam as explicações no limbo, de onde o problema custará a ser resgatado ou pelo menos lembrado.

sábado, 2 de maio de 2009

Twister

A moda das últimas 24 horas é o twitter, uma espécie de blog de mensagens curtíssimas, com duas ou três linhas. Os defensores da novidade, defensores de qualquer coisa, argumentam que o twitter dá agilidade à informação.

As relações sociais caíram na entropia. Mal assimilamos internet, TV por assinatura, blogs, jornais impressos, surgiu essa coisa. Como na postagem Cada um no seu quadrado, afirmo: ninguém precisa de notícia minuto a minuto. Faça o teste assistindo ao jornal noturno. Ao final dele, quanto de notícia você consegue lembrar?

O tempo é cíclico, só a mentira muda. Na pré-história acreditávamos no sobrenatural; da idade antiga ao século XIX acreditávamos que humanos nasciam para ser escravos; hoje acreditamos na bizarrice do tempo real.

Não existe tempo real a não ser que presenciemos o acontecimento. Toda a informação transmitida, por qualquer veículo, é passado.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Não é droga, mas a vida

O intelectualismo condenar-me-á por ler a biografia de Garrincha, Estrela Solitária, de Ruy Castro. Se o futebol é visto como ópio do povo e outras bobagens, a literatura especializada então é heresia.

Digo de cabeça erguida, porém, que foi prazeroso conhecer uma versão da vida de Garrincha. Castro escreve com humor e precisão, penetrando em detalhes da vida do jogador, possível apenas com a habilidade de conquistar a confiança dos entrevistados.

Estrela solitária mostra o fim do complexo de vira-latas e a dicotomia que acompanha o brasileiro até hoje: fazer vista grossa nos erros do herói quando ele está bem e condenar os mesmos erros do mesmo herói quando ele está mal.

O autor exagera ao associar os antepassados de Garrincha ao comportamento dele, como se a ingovernabilidade do ponta-direita fosse genética. Ruy Castro também erra ao mastigar demais o texto, dizendo em cinco palavras o que poderia ser dito em duas. Falhas perdoáveis, contudo. O futebol peita a lógica e o academicismo.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Espírito de porco

Vejo todos os dias jogarem bitucas de cigarro, embalagens, comida nas ruas.

No Brasil, a gripe suína é cultural.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A voz

Com a greve do sindicato dos professores do DF (veja bem, greve não dos professores, e sim do sindicato), arrasta-se um bate-boca na imprensa digno do STF. O mais legal trava-se no rádio.

Quando surge o "informe publicitário", pode saber. A voz padrão dos informes publicitários falará. A mesma voz fala bem ou mal do governo, diz que as assembléias do sindicato estão abarrotadas ou às moscas, afirma que os professores vivem como sultões ou como ganhadores do salário mínimo. Depende de quem a contratou.

Enquanto isso, a população desinforma-se a cada bombardeio de informações conflitantes, talvez todas mentirosas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Melhor que nada, pior que a média

Escrevi que Ronaldo não tem mais condições de jogar em alto nível. Mantenho minha posição.

A qualquer momento ele pode sofrer contusão muscular, como aconteceu no Milan e no Real Madrid. O físico dele é mais frágil do que a média. Não dá para pagar R$ 400 mil mensais a um jogador assim, que pode desfalcar o time em jogos importantes e abrir espaço para o Souza.

Até agora deu tudo certo, ele marcou belos gols, mas não comparecer a certos jogos, pré-requisito de sua atual condição, pode custar campeonatos.

Ronaldo ser melhor que Souza, Obina, Tardelli e Ciro é inegável, mas atacantes medianos como Washington e Borges e promissores como Keirrison são preferíveis. Sem falar no excelente Nilmar.

Dizer que Ronaldo é o melhor do Brasil é temeridade. Melhor do Brasil quando? Nas últimas duas semanas? Então vamos escolher o melhor do Brasil de hora em hora. Taí o twitter.

domingo, 26 de abril de 2009

Balanço de uma ida ao sebo

Fiéis leitores, gostaria de dividir com vocês o prazer da noite de sexta passada. Após o expediente, dirigi-me a um charmoso lugar de Brasília: o Sebinho.

Sempre há surpresas nas estantes do principal cedo da capital. Nesse dia me esbaldei com edições da Nova Cultural, de capa dura e estilizada, publicações do melhor da literatura. Adquiri:

- Os três mosqueteiros, de A. Dumas;
- Fausto, de Goethe;
- Histórias extraordinárias, de E. A. Poe;
- O vermelho e o negro, de Stendhal; e
- Ana Karenina, de Tolstói.

De outras editoras, comprei O livro das mil e uma noites, vol. 1, e O cortiço, de Aluísio Azevedo. Descobri ter trinta livros não-lidos. Aguardem as próximas críticas.

sábado, 25 de abril de 2009

Os abutres farejam

Com o câncer de Dilma Roussef, aumenta a cobiça pela vaga de vice-presidente na chapa petista em 2010.

O PMDB não perderá a chance de exercitar o próprio oportunismo.

O quadrado tornou-se buraco negro

Duas situações que presenciei me fez lembrar da postagem Cada um no seu quadrado, em que critico o uso excessivo do laptop. O que imaginei ser empolgação com a tecnologia tornou-se doença.

Primeiro tive uma aula cancelada porque o laptop não suportou o arquivo que continha o filme a ser debatido. Os organizadores da aula disseram que tiveram de baixar o filme porque ele não existe em DVD, apenas em VHS. Como se fosse um absurdo assistir ao filme em fita.

No dia seguinte, outra aula atrasou 45 minutos porque o laptop não funcionava com o projetor de imagem. Assim, os alunos que apresentariam o seminário e o professor ficariam sem apresentação de slides. Como se fosse impossível explicar algo sem PowerPoint.

Sócrates, Galileu, Einstein, Santos Dumont não usavam computador.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Prévia é bom para o pósvia

Partido que evita prévia perde oportunidade de se fortalecer, caso do PT-DF na disputa para governador em 2010. Prévia mostra como o partido é democrático, argumento para propaganda eleitoral; dá satisfação ao perdedor; aglutina a legenda em torno do vencedor. A disputa democrata na escolha de Barack Obama exemplifica o sucesso das prévias.

Quem não gosta de prévia é candidato covarde, como José Serra; quem erra ao desestimular o embate dele com Aécio Neves é o PSDB, que assim não fica unido em torno do governador paulista nem cala o governador mineiro.

Serra não querer as prévias é compreensível; o PSDB dispensá-las, não. O raciocínio aplica-se ao PT-DF.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Reconhecimento ainda que tardio

O Dia de Tiradentes traz à tona o principal lugar do Brasil: Minas Gerais. Há muito o Rio de Janeiro não é a referência nacional, só falta admitirmos.

As cidades-sede da Copa-2014 sequer foram definidas, e o Maracanã é o palco da final. Quando se pensa em palavras para resumir o país surge o samba. Papo de saudosistas.

Minas Gerais é o principal estado brasileiro. Lá nasceram o revolucionário Tiradentes, bode-expiatório da Inconfidência Mineira; Tancredo Neves, a luz no fim do túnel que se apagou; Juscelino Kubistchek, considerado o melhor presidente da República, apesar de eu descordar; Pelé.

Enquanto o Rio de Janeiro produzia malandros e São Paulo insistia no café, Minas fornecia leite, o primeiro alimento do homem. Acorde, Brasil.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Pela graça

A comemoração de Ronaldo no gol marcado ontem contra o São Paulo foi o melhor momento do jogo. Ao ironizar a confusão quanto ao gesto de Christian no jogo passado, o centroavante contribui para a graça no futebol (tão defendida por um comparsa).

Quando no Real Madrid, Ronaldo e Roberto Carlos comemoravam gols simulando baratinhas: deitando no chão e sacudindo as pernas. Os adversários argumentaram que era deboche dos brasileiros. Após o protesto, em um Brasil x Venezuela, Kaká marcou um gol e na comemoração recebeu tapas na cabeça. Ronaldo explicou que ninguém pode comemorar: fez gol, apanha.

Mestres da arte usavam a ironia como expressão. Ronaldo faz como Machado de Assis e Charles Chaplin. Eles dão graça à existência.

O Corinthians mereceu classificar-se por finalizar melhor.

domingo, 19 de abril de 2009

Breve história da entrevista

O jornalismo diferencia-se como ramo do conhecimento por sua literatura especializada servir não apenas para os estudantes e profissionais da área, mas também para o público em geral. Como a maioria das pessoas acompanham notícias, cabe a ela informar-se sobre a produção das reportagens. Difícil imaginar um pedreiro lendo Cálculo ou um advogado lendo A formação das leguminosas. Porém, qualquer um pode ler A arte da entrevista.

A seleção de entrevistas feita por Fábio Altman, somada às ácidas caricaturas de Cássio Loredano, contam a história do Brasil e do mundo desde o século XIX e conta a história da entrevista como braço do jornalismo. Impensável hoje ver os jornais sem os textos de perguntas e respostas ou sem os perfis.

Quem não estiver disposto a ler as 480 páginas pode selecionar as entrevistas que mais lhe interessam. Há políticos como Getúlio Vargas e J. K. Kennedy, artistas como Picasso e Samuel Beckett, pacifistas como Gandhi e Dom Hélder Câmara. Gente de todo tipo como o mafioso Al Capone, o indefinível Madame Satã e o cientista Thomas Edison.

Os curiosos por ler frases ditas por famosos encontrarão Marx, Freu, Drummond. Eu recomendo as entrevistas do escritor russo Tolstói, do comunista Luís Carlos Prestes e de Lula, antes da eleição de 2002.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Constituição do Maranhão proíbe Roseana Sarney de assumir o governo

Constituição do Estado do Maranhão:

Art. 61: Vagando os cargos de Governador e de Vice-Go­vernador do Estado, far-se-á eleição noventa dias depois de aberta a última vaga.

§ 1º. Ocorrendo a vacância nos dois últimos anos do período governamental, a eleição para ambos será feita trinta dias depois da última vaga, pela Assembléia Legislativa, por voto nominal.

Art. 60 - Em casos de impedimento do Governador e do Vice-Governador do Estado, ou de vacância dos respec­tivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício do Poder Executivo o Presidente da As­sembléia Legislativa e o Presidente do Tribunal de Justiça.

Resumindo: o presidente da Assembléia Legislativa é o novo governador do Maranhão. A Assembléia deve em trinta dias realizar eleições para completar o mandato de Jackson Lago. A Constituição do estado não diz que o segundo colocado da eleição deve assumir o governo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Óbvio ululante

Fiéis leitores, contradizer-me-ei.

As damas e os cavalheiros sabem do perfil deste blog: buscar o que as outras mídias não mostram, publicar a face não esbofeteada. Porém hoje quero abrir exceção e escrever sobre o óbvio (oras, os senhores dirão, se é óbvio não precisa dizer).

Presidiários na Flórida vão pagar pelas estadas na prisão. Aliás, em muitos países - os sensatos - os presos custeiam com trabalho o próprio cárcere. Por que cargas-d'água os brasileiros têm que pagar as diárias de quem os roubou, feriu ou tirou pessoas queridas?

Hoje um dos donos do Brasil, Daniel Dantas, vai depor na CPI das Escutas. O STF (o escrete nacional!) concedeu-lhe habeas corpus para permanecer calado. Então para que depoimento? Entreguem os nossos salários para ele logo, não precisa de encenação.

José Simão, onde você compra colírio alucinógeno?

terça-feira, 14 de abril de 2009

EUA, ame-o ou deixe-o

Um dos mistérios da vida para mim é o embargo dos EUA a Cuba. Não o embargo em si, mas o desejo castrista de suspendê-lo.

Oras, os EUA não são os inimigos número um?! Por que comercializar com eles? Situação semelhante acontece na Venezuela, onde os revolucionários bolivarianos dependem da venda de petróleo aos yankees. Sim! Chávez depende dos imperialistas.

Se alguém puder explicar as contradições, agradeço.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O sofisma de Pernambuco

A moda irritante do momento é o suposto bom futebol do Sport Recife. Por ganhar o Campeonato Pernambucano sempre e por duas vitórias na Libertadores, a crônica esportiva fez desse time secundário um time de primeira.

Contudo, campeonato estadual só serve para a saudável rivalidade, não para mensurar qualidade. Na Libertadores, o Sport venceu a enfraquecida LDU e o Colo-colo, equipe chilena limitada.

Quando os pernambucanos forem eliminados do torneio continental, voltarão a ser o que sempre foram: coadjuvantes no futebol brasileiro. Sem projeção nacional, gordas cotas de patrocínio e títulos, não se pode ser grande.

sábado, 11 de abril de 2009

O gênio da Lampedusa

Único romance de Giuseppi Tomasi, O Gattopardo ilustra o que eu disse sobre a arte literária na crítica anterior. 40% dos fiéis leitores - 2 - não entenderam o conceito.

As ilusões armadas e O sacerdote e o feiticeiro, de Elio Gaspari, são livros documentais, objetivos e diretos. Lê-se pela informação, não pelo prazer de ler. Por outro lado, O Gattopardo tem linguagem própria, imprevisível, poética, característica dos grandes autores como Lampedusa, García Márquez, Machado de Assis e Saramago.

Exemplifico: em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis diz que o romance do protagonista com Marcela durou quinze meses e onze contos de réis. O autor poderia ter simplificado e dito que a relação durou enquanto Marcela se aproveitou do dinheiro do namorado. Em Viver para contar, o protagonista aguarda uma carona na chuva, no frio, sentado no meio-fio, debilitado. A carona chega e pergunta: "Você é o Gabito?" Resposta: "Quase não sou mais". O escritor poderia ter simplificado e dito que sim, era ele. Porém, para os melhores não basta dizer.

Assim é O Gattopardo, escrito nos anos 1950, mas ambientado na segunda metade do século XIX. Talvez por isso o romance soe realista apesar de escrito na época das vanguardas. Tomasi retrata com fidelidade o contexto da Itália durante a unificação, mostrando a decadência dos nobres sem dinheiro e a ascenção da burguesia sem fineza.

O livro é repleto de descrições à lá Flaubert e mostra um casal diferente das tragédias românticas e das friezas realistas. Não desanime com as primeiras páginas; a morosidade da leitura retrata o declínio dos Salina assim como a morosidade de Madame Bovary retrata o tédio de Emma Rouault.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Vai que cola

A Câmara dos Deputados desiste com freqüência de bobagens cometidas, de acordo com a reação da opinião pública. A estratégia consiste em legislar por interesses privados; se ninguém reclamar, ótimo.

Os deputados mudaram de opinião na farra dos vereadores, na divulgação de CNPJ das empresas em prestação de contas, na concessão de plano de saúde a comissionados.

Pelo menos vozes da sensatez não se calaram. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirmou ontem na GloboNews que a imagem do Congresso está no fundo do poço ao contrário de colegas que querem "salvar a imagem" da instituição. Salvar o que se perdeu?

PS: quando a imprensa diz que a Câmara desiste de algo, escreve: "Câmara volta atrás..." Ainda bem que quem volta, volta para trás.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Brasileiro entra de sola

Há muito descorro aqui sobre o problema do Brasil: cultura.

Na Índia um jornalista sem criatividade jogou um sapato em não-sei-quem para ofendê-lo, como o jornalista iraquiano com o Bush. Em países ocidentais o gesto basta como ofensa grave.

No Brasil a mentalidade bárbara exige que o sapato acerte a testa do cidadão. Se não provocar dor e um galo de vários dias, o ofensor é um pamonha.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Lula não quer ser o homem de Obama

Lula constrangeu-se com a afirmação de Barack Obama: "this is my man".

Imaginem, fiéis leitores, um retirante nordestino barbudão escutando isso. Ih, companheiro, tá estranhando?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Crianças aprendem rápido, inclusive a matar

A polícia do DF prendeu mais de trinta menores com mandados de prisão pendentes. Conforme a lei, foram encaminhados para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Nessas circunstâncias surgem idéias favoráveis a reduzir a maioridade penal. Porém, a medida não daria certo porque o crime buscará bodes expiatórios mais novos.

O filme Diamante de sangue, com Leonardo DiCaprio, mostra como bandidos corrompem crianças e transfiguram-nas em assassinos. É a mesma tática do tráfico de drogas no Brasil.

Logo, reduzir a maioridade penal é mudar o lixo de lugar. O mau cheiro fica.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sinal dos tempos

O G-20, grupo dos países mais ricos do mundo, do qual o Brasil participa, vai dar dinheiro ao FMI.

Deixa eu ver se entendi: o Brasil vai dar dinheiro ao FMI?

A ditadura aberta

Se o principal talento do ficcionista é a criatividade, o principal do jornalista é a persistência. Não à toa Elio Gaspari precisou de dezoito anos para publicar o primeiro volume de As ilusões armadas e O sacerdote e o feiticeiro.

O autor dá aula de jornalismo ao embasar o que escreve com dezenas de referências bibliográficas; ao manter intrínseco relacionamento com as fontes, extraindo delas uma vida de documentos de um período brutal, mas registrado; ao expor o trabalho com transparência indicando de onde tirou cada informação.

Hoje são quatro livros sobre a ditadura militar brasileira, totalizando 2 mil páginas, fora o último volume previsto para 2010. A princípio o tijolo de informações assusta, mas quando se trata de assunto tão relevante, melhor sobrar do que faltar.

Gaspari reconstrói a História da queda de João Goulart à posse de Figueiredo, seguindo uma corrente de historiadores que limitam a ditadura até 1978, pois o governo de Figueiredo é o da anistia, da abertura e do fim do AI-5.

A clareza do texto compensa a falta de arte literária. O autor mescla fatos com análises, perfis com documentos. Esclarece como funciona a mente dos homens que atrasaram o país com milagres paliativos e lágrimas irreversíveis.

Fábula fabulosa

Era uma vez um anão que se achava o mestre mas que deixava todo mundo zangado. Um dia o anão, troglodita, abateu o indefeso peru, vangloriando-se. Isso com a ajuda do pato e de dois imperadores.

Porém o anão nunca entenderá que jamais terá a fineza de cavalheiros como o argentino, o equatoriano ou o uruguaio.

Sempre levará um baile deles.

PS: A Itália tem Pirlo; a Espanha tem Xavi; a Inglaterra tem Gerrard. Nós temos Fe-li-pe Me-lo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Não é mentira: a CLDF aprovou outra lei ilegal

A Câmara Legislativa aprovou uma lei que condiciona aumento de salário dos servidores públicos à arrecadação do GDF. A nova legislação também determina que o governo tem até o dia 15 do mês seguinte para pagar salário do funcionalismo. Em pouco tempo o projeto, governista, passou por quatro ou cinco comissões.

Mais uma lei ilegal da Câmara. A Lei Orgânica do DF determina que o pagamento dos servidores públicos deve ser feito até o dia cinco do mês seguinte. Nenhum repórter pôs parlamentar na parede e questionou isso. Como ninguém questionou o motivo de um projeto governista passar como um furacão nas comissões, beneficiando o governador Arruda com agilidade que não beneficia os projetos de interesse social.

terça-feira, 31 de março de 2009

Lula, no cravo e na ferradura

Nos últimos dias, o presidente da República tomou duas medidas de utilidade oposta.

A boa foi aumentar impostos do cigarro. Nada mais justo, pois fumante e empresário do tabaco tem que se lascar mesmo.

A ruim foi dar benefícios para montadoras de automóveis sem pedir algo em troca como redução de emissão de gases por meio de carros menos poluentes.

Ambiente, junto com a educação, deve ser prioridade de governo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ave, César

A performance da Seleção contra o Equador foi medonha. A culpa é de Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, por jogar quatro anos fora ao contratar Dunga.

Júlio César foi bestial.

Dunga não foi capaz de ver jogos do Equador e perceber a qualidade do ponta-direita Guerrón. Escalou o mau marcador Marcelo na lateral-esquerda, sem cobertura. Kléber seria opção melhor. Anderson poderia fazer a cobertura pela esquerda. Miranda poderia jogar de falso-lateral, pois joga pela esquerda no São Paulo.

Obina é melhor que Luisão.

Felipe Melo foi escalado para organizar a saída de bola. A saída de bola não funcionou porque Felipe Melo é fraco. Anderson, Hernanes, Ramires ou Elano poderiam ter feito a função. Além disso, Dunga orientou a defesa a ficar na intermediária nos tiros-de-meta, obrigando Júlio César a dar chutões. A idéia era dar a bola ao Equador para tomá-la e contra-atacar. Estratégia burra e covarde. E ninguém roubava bolas, sequer o principal marcador. É porque Gilberto Silva é fraco (senão teria ficado no Arsenal).

Ronaldinho não precisa de afago, mas de esporro. Seleção é futebol de alto nível, não há espaço para menino emburrado. Mesmo assim teve liberdade pelo meio porque esse é o setor mais fraco da defesa equatoriana. Se nosso principal jogador centralizado estava sem condições, porque Dunga não convocou Diego?

Robinho jogou a carreira fora ao transferir-se para o Manchester City.

Luís Fabiano teve três chances e não converteu. Isso não é culpa do técnico.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Engenhocas nos vestibulares das federais

A proposta de unificar os vestibulares das universidades federais brasileiras tem tudo para dar errado. A idéia permitiria ao estudante fazer uma prova e concorrer a vagas em qualquer federal.

O intercâmbio entre pessoas de diferentes estados, países e culturas é positivo, mas isso não implica estimular mudanças massivas de estudantes de uma localidade a outra. A universidade federal, apesar de mantida pela União, deve servir à comunidade local. Por isso há mais de 50 federais Brasil afora. Todos têm pelo menos uma no seu estado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Retrato falado

Leitores subestimam o valor de categorias da literatura como a de terror e a ficção histórica. Essas pessoas, do alto da arrogância, enchem o peito para explanar sobre Machado de Assis ou Shakespeare. Repito: nem só de Camões vive o homem.

Frankenstein, de Mary Shelley, é ótima experiência. A obra encarna o espírito do século XIX, quando o avanço tecnológico digladiava-se com a fé religiosa. O Romantismo estava no auge, o Realismo engatinhava.

Shelley discute dúvidas que atormentam a humanidade até hoje. Qual a responsabilidade do homem sobre o que ele faz? A ciência deve ter limites? A religião pode regular a tecnologia? Somos produtos do meio?

O livro mostra o paradoxo da evolução humana. Enquanto descobrimos mais sobre tudo, amadurecemos não mais que nada. Os milênios passam, e os preconceitos do homem consigo mesmo perpetuam-se.

De leitura fluente e cheio de (melo)drama, Frankenstein reflete a estupidez da racionalidade. O texto da autora é inocente, ingênuo devido à juventude dela na época da escrita, mas não minimiza o talento criativo de Shelley.

terça-feira, 24 de março de 2009

O erro de sempre na Seleção

O erro que marca a gestão de Dunga à frente da seleção brasileira é insistir no que deu errado, a vulga teimosia.

No gol: convoca o limitado e bem assessorado Doni. Assim, não temos um reserva preparado para substituir Júlio César nem um goleiro jovem em preparação para 2014. Eu escolheria Rogério Ceni para o primeiro reserva, sendo que não precisa convocá-lo para testes, e Renan, do Valência, como o jovem.

Nas laterais: Insiste no voluntarioso e perneta Maicon como titular; Daniel Alves seria melhor. Não convoca o melhor lateral-esquerdo brasileiro hoje: Fábio Aurélio, do Liverpool.

Na zaga: Lúcio e Juan deixaram de ser os melhores zagueiros brasileiros. A dupla deveria ser Miranda e Thiago Silva. Alex Silva, do Hamburgo, e David Luiz, do Benfica, deveriam fechar o quarteto.

Volantes: Hernanes e Ramires. Ainda deixo ele escolher um de três: Josué, Gilberto Silva e Felipe Melo (fraquíssimo).

Meias-armadores: Júlio Baptista não é melhor que Thiago Neves, Alex ou Diego.

Pelo menos resolveu o ataque da Seleção. Luís Fabiano tem que ser o titular. Pato, a duras penas, desenvolveu-se no Milan.

Não esqueci, Dunga

Setores da crônica esportiva conformaram-se com o técnico da Seleção, Dunga. Há quem diga que ele faz bom trabalho.

Não serão as entrevistas emocionadas sobre a história de vida do anão que me farão mudar de idéia. As estatísticas não me enganam. No pega-pra-capar, Dunga só foi bem na final da Copa América, 3 a 0 na Argentina.

Se analisarmos as derrotas em jogos oficiais, desistiremos da Copa de 2010. O Brasil levou um baile - veja bem, um baile - do Paraguai, um timeco, e da Argentina na semifinal da Olimpíada. Fora atuações ruins como a contra o Uruguai no Morumbi, em que o treinador foi salvo pela individualidade dos atletas.

É fácil escorar-se no talento de finalização de Luís Fabiano, nas arrancadas de Kaká e na confiança de Robinho. Não é preciso ser inteligente para convocá-los.

É difícil ver o Brasil dar vexame, não conseguir trocar passes, finalizar pouco. O brasileiro passa raiva com a Seleção desde 1982, com classificações sofríveis para as Copas do Mundo. Exceto, talvez, em 2005, quando o Brasil jogou bem, com Kaká, Ronaldinho, Robinho e um centroavante (prova de que o esquema dá certo).

segunda-feira, 23 de março de 2009

O futuro é o passado

A Google, dona do mundo, implanta aos poucos novo recurso no Gmail. Trata-se da opção undo, desfazer em inglês, por meio da qual o usuário poderá cancelar o e-mail depois de enviado.

Voltar ao passado com o undo é o futuro da humanidade. A opção existe em alguns programas de edição de texto, áudio e vídeo, e considero-a mais importante que o Ctrl+C, Ctrl+V.

Em breve, a dona de casa vai pagar pelo undo tão desesperadamente quanto paga pela máquina de lavar, pela televisão e pelo anti-concepcional. O divórcio, o sal de frutas e a lavagem cerebral cairão em desuso. Homens cancelarão as cantadas mal-sucedidas, virgens retomarão a donzelice.

Nada de carros voadores ou tele-transporte. No horizonte desponta o Ctrl+Z.

domingo, 22 de março de 2009

Air-bag não é a solução para o trânsito

O presidente Lula sancionou mais uma bizarrice do Legislativo brasileiro: a lei que torna obrigatória a presença de air-bag nos carros que circulam pelo país.

Vamos analisar o assunto com o método do ônus e bônus. O ônus é o aumento de milhares de reais nos custos dos veículos. Duvido que os empresários vão reduzir a margem de lucro, logo, o custo cairá nas mãos do consumidor. O segundo problema é a manutenção do sistema. Uma vez acionado, o air-bag não pode ser substituído por um estepe ou recauchutado, é necessário pagar de novo por ele.

O bônus alegado - salvar vidas - deve ser almejado de outra maneira. Em vez de mobilizar assessores e parlamentares para aprovarem questões secundárias, poder-se-ia usar o tempo deles para aprovar legislação capaz de evitar o acidente de trânsito, não remediá-lo. Seria o caso de investir na preparação de motoristas, fortalecer o transporte coletivo e revitalizar estradas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Manda prender, não manda soltar

O Senado suspendeu a construção de uma cela nas dependências da instituição. Ela serviria para prender quem cometesse crime dentro da casa.

Não, gente! Construam! Sobram merecedores de prisão no Senado, na Câmara dos Deputados, no Tribunal de Contas da União...

PS: uma das diretorias extintas no limpa que o primeiro secretário, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), está fazendo é a diretoria para manutenção de ar-condicionado.

Fanáticos

O Jornal Hoje, da TV Globo, veiculou reportagem sobre a visita do papa Bento XVI a Angola. A matéria relembra a comemoração de 500 anos da evangelização do país, no papado de João Paulo II.

A evangelização de africanos e latino-americanos foi um dos maiores estupros culturais da humanidade. A Igreja invadiu países, penetrou em nações fragilizadas pelo colonialismo europeu e foi conivente com a escravidão, tudo sob o pretexto de salvar supostos bárbaros.

Bárbaro é quem destrói a cultura, a língua e a religião dos outros, patrocinando genocídios e preconceitos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O homem não gosta de si mesmo

A ficção histórica Spartacus, do estadunidense Howard Fast, é um grande tema nas mãos de um escritor pouco talentoso. O leitor deve ser paciente e ler até a página 100 para a leitura empolgar. Os diálogos são artificiais, e as descrições das cenas de batalha, apressadas e incompletas.

Porém, a estrutura da obra foi bem feita. Fast conta a história com dois enredos que se cruzam: o luxo dos cidadãos romanos e a miséria do resto. O livro mostra o desprezo do ser humano por si mesmo. Os romanos tratavam bem os gladiadores para fazer deles máquinas de morte, enquanto tratavam mal os demais escravos, que colhiam alimento e extraíam minerais, produzindo vida.

A quem gosta de ficção histórica recomendo ler Bernard Cornwell. O britânico escreveu livros como O condenado, sobre a Londres do século XIX, As crônicas de Artur, sobre a Inglaterra do século VI, e A busca do Graal, sobre a Guerra dos Cem Anos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Gangrena e gangorra americanas

Contém spoilers.

Uma linha liga os filmes Gangues de NY e O gângster à atualidade. O primeiro retrata o embrionário Estados Unidos durante a Guerra de Secessão, sintetizado em Nova Iorque. A cidade era dividida quanto a ideologias, culturas e religiões, assim como o país dividia-se em norte e sul, em abolicionistas e escravocratas e em interesses faccionistas em detrimento da que veio a ser vencedora: a União.

Um século adiante, chegamos ao contexto do segundo filme, ambientado no poderoso Estados Unidos pós-guerras mundiais, que metia os pés pelas mãos no Vietnã, onde foi derrotado. O protestantismo dominou a nação, os faccionistas perderam o debate político, mas permanecem duas mazelas do século XIX: a discriminação racial e a corrupção do poder público.

Gangues de NY é uma carnificina maior que Kill Bill, tem em Amsterdan Vallon (DiCaprio) um fraco protagonista, mas reproduz com fidelidade a construção da identidade americana e deleita-nos com a atuação de Daniel Day-Lewis como o açougueiro de sugestivo nome, Bill Cutting.

Mais bem feito, O gângster traz os brilhantes Denzel Washington (o traficante negro Frank Lucas) e Russel Crowe (o incorruptível detetive Roberts). Baseado em fatos, apresenta três aspectos dignos de ficção: o sucesso e glamour do traficante negro que superou a máfia dos brancos; o incorruptível policial que devolve US$ 1 mi em vez de embolsá-lo - e que deixa todos pasmos por isso; e o epílogo do filme, que mostra a condenação e o cumprimento da pena de traficantes e corruptos.

Por fim, chegamos aos dias atuais. A negritude chegou à Casa Branca, Nova Iorque tornou-se a capital do mundo, a intolerância religiosa continua, novos corruptos surgiram e as pessoas ainda estranham quando alguém toma atitude honesta em vez de tirar vantagem de todas as situações.

terça-feira, 17 de março de 2009

O trabalho de Clodovil

O deputado federal Clodovil Hernandes apresentou proposta de emenda constitucional (PEC) que reduziria o número de deputados na Câmara de 513 para 250.

A PEC não será aprovada nos próximos 700 anos, mas, assim, ele fez mais pelo país do que muito dinossauro do Congresso Nacional. E não se envolveu em escândalo de corrupção, não que eu saiba.

Os pobres e os loucos

Volta-e-meia o noticiário mostra maníacos chacinando coleguinhas na faculdade ou desconhecidos no cinema. Os exemplos clássicos são de estrangeiros. No Brasil, acontecem menos bizarrices como essas. Os grandes e freqüentes assassinatos daqui têm a ver com dinheiro.

Isso acontece porque no Brasil há defasagem social e no exterior há defasagem psicológica. Os nossos criminosos cotidianos são pobres, os deles são loucos. Enquanto o ladrão/assassino brasileiro quer comprar marmita ou comprar tênis de marca, o ladrão/assassino estrangeiro quer canalizar a frustração com a vida e, por isso, metralha os outros.

Eles, os verdadeiros bárbaros, a verdadeira anti-civilização, se suicidam na própria mentalidade consumista, acumulativa e competitiva. No Japão, pessoas que perdem emprego se matam; na Áustria, um homem prendeu a filha durante 24 anos e teve sete filhos com ela; nos EUA, uma dupla de assaltantes matou sem motivo a família Clutter, nos anos 50.

Infelizmente, nós, brasileiros, convivemos com tragédias como a do casal paranaense em que a menina foi baleada e estuprada, e o rapaz, morto; a do menino João Hélio; a das jovens Eloá e Isabella. Mas se compararmos os nossos problemas com os deles concluo que o mundo rico enlouqueceu.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A "geração tanto faz"

Da coluna de Gilberto Dimenstein na Folha Online:

"É consenso entre educadores que se dissemina a chamada 'Geração Tanto Faz', composta de crianças e adolescentes cercadas de proteção e, por isso, sem treino para suportar obstáculos e frustrações. Tudo tem de ser fácil e imediato --e divertido."

Jovens fiéis leitores, nascidos nos anos oitenta e criados com o bom e o melhor, atenção. Somos passíveis de contrair o vírus da geração tanto faz. Sinto que ele corre nas minhas veias, confesso. Sou cheio de projetos, mas a preguiça pretende destruí-los.

Rebelemo-nos! Não aceitemos a derrota!

quinta-feira, 12 de março de 2009

A crise não existe

Pronto, acabei com essa balela de crise, mudemos de assunto. O mundo não está em crise!

Acostumamo-nos a ver as coisas do ponto de vista errado. Estranho não é crescer pouco, mas crescer 10% como a China atual e o Brasil dos anos 70. Não há natureza que agüente tamanha sangria de matéria-prima e tamanha descarga de toxinas nas águas e no ar.

O capitalismo divulgou que produzir, produzir, produzir é positivo. Errado. Podemos viver com menos. A população não cresce tanto a ponto de justificar aumentos estratosféricos de PIBs. Malthus errou, esqueceram?

O empresariado quer produzir descontroladamente para vender e lucrar, não porque querem garantir suprimentos ao mundo. Se há fome, o problema é a distribuição mal-feita, não a produção baixa. Se há desemprego, o problema é a má qualificação dos desempregados; no Brasil sobram oportunidades de trabalho na área tecnocientífica. Mas todo mundo quer ser servidor público! Aí não dá mesmo.

A economia mundial está em colapso porque especuladores irresponsáveis deram crédito fantasma para consumidores irresponsáveis. Criminosos deram dinheiro inexistente para pessoas sem dinheiro gastarem à vontade. No fim das contas, o contribuinte mundo afora recebeu o encargo de tapar o rombo.

Se gastarmos só o que pudermos, sem cair no conto do vigário dos banqueiros, o mundo volta ao normal. Quando isso acontecer, deveremos pôr na cabeça mentalidades mais humildes quanto a crescimento econômico. Assim, riscaremos do cotidiano a crise, palavra que ficou chata.

Viola e sanfona estão esquecidos no baú da vovó

Vi a programação provisória da Festa Nacional do Milho, tradicional festa comemorativa do aniversário da cidade de Patos de Minas, Triângulo Mineiro.

Corremos o risco, fiéis leitores, de termos na festa a banda NX Zero. Sim, NX Zero. Isso para o amante do sertanejo romântico-baboso-de raiz é ultrajante. Além disso, tornou-se tradicional nos últimos anos a existência de tenda eletrônica no parque agropecuário.

Por favor, tragam-me os sais.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O livro grande do nem tão grande ditador

Os dois volumes da biografia Hitler, do jornalista alemão Joachim Fest, são tijolos de informação sem criatividade. As 950 páginas (entre texto, milhares de notas e índice) matam a curiosidade do leitor sobre a vida do austríaco que achava ter sangue puro e servem como documento da História, mas não empolgam.

Não esperem jornalismo literário da obra. Não há construção de diálogos, valorização das personagens ou qualquer característica de romance. Fest escreveu densas páginas à la historiador. A biografia é tão somente informação sem esforço estético. Reserve concentração para absorver a leitura.

Tampouco espere entender a lógica diabólica dos campos de concentração, as táticas aliadas, as figuras como Churchill, Stalin ou Roosevelt. Os livros concentram-se apenas em Adolf Hitler, não são tratados sobre a Segunda Guerra Mundial ou o nazismo. O que se pode ver são as fraquezas de um guia (führer) nem tão grandioso, habilidoso e inteligente como pode-se pré-conceber.

Por fim, além do catatau de dados e o mar de notas, o exagero de artigos indefinidos prejudica a leitura. Não sei se erro de tradução ou má escrita do autor (na edição da Nova Fronteira).

terça-feira, 10 de março de 2009

Será que vai chover?

Presencio pela janela do meu quarto um dos mais belos espetáculos da vida: a chuva. Ela embala o beijo apaixonado dos casais, revela as curvas das mulheres vestidas de branco, refresca o ambiente, sacia a sede dos animais.

Porém, não somos dignos do choro dos céus. Machucamos cada gota ao expelir toxinas na atmosfera e ainda temos a cara-de-pau de apelidá-la de chuva ácida. Ácidos somos nós, seres desumanos, que se enfurnam em escritórios enquanto a natureza pulsa lá fora.

Ácidos somos nós que nos obrigamos ao calor dos ternos e à forca das gravatas enquanto poderíamos nos refrescar com a água benta das nuvens. Ácidos somos nós que encarceramos a água da chuva nas ruas porque entupimos os bueiros.

Até quando vai chover?