terça-feira, 31 de março de 2009

Lula, no cravo e na ferradura

Nos últimos dias, o presidente da República tomou duas medidas de utilidade oposta.

A boa foi aumentar impostos do cigarro. Nada mais justo, pois fumante e empresário do tabaco tem que se lascar mesmo.

A ruim foi dar benefícios para montadoras de automóveis sem pedir algo em troca como redução de emissão de gases por meio de carros menos poluentes.

Ambiente, junto com a educação, deve ser prioridade de governo.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Ave, César

A performance da Seleção contra o Equador foi medonha. A culpa é de Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, por jogar quatro anos fora ao contratar Dunga.

Júlio César foi bestial.

Dunga não foi capaz de ver jogos do Equador e perceber a qualidade do ponta-direita Guerrón. Escalou o mau marcador Marcelo na lateral-esquerda, sem cobertura. Kléber seria opção melhor. Anderson poderia fazer a cobertura pela esquerda. Miranda poderia jogar de falso-lateral, pois joga pela esquerda no São Paulo.

Obina é melhor que Luisão.

Felipe Melo foi escalado para organizar a saída de bola. A saída de bola não funcionou porque Felipe Melo é fraco. Anderson, Hernanes, Ramires ou Elano poderiam ter feito a função. Além disso, Dunga orientou a defesa a ficar na intermediária nos tiros-de-meta, obrigando Júlio César a dar chutões. A idéia era dar a bola ao Equador para tomá-la e contra-atacar. Estratégia burra e covarde. E ninguém roubava bolas, sequer o principal marcador. É porque Gilberto Silva é fraco (senão teria ficado no Arsenal).

Ronaldinho não precisa de afago, mas de esporro. Seleção é futebol de alto nível, não há espaço para menino emburrado. Mesmo assim teve liberdade pelo meio porque esse é o setor mais fraco da defesa equatoriana. Se nosso principal jogador centralizado estava sem condições, porque Dunga não convocou Diego?

Robinho jogou a carreira fora ao transferir-se para o Manchester City.

Luís Fabiano teve três chances e não converteu. Isso não é culpa do técnico.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Engenhocas nos vestibulares das federais

A proposta de unificar os vestibulares das universidades federais brasileiras tem tudo para dar errado. A idéia permitiria ao estudante fazer uma prova e concorrer a vagas em qualquer federal.

O intercâmbio entre pessoas de diferentes estados, países e culturas é positivo, mas isso não implica estimular mudanças massivas de estudantes de uma localidade a outra. A universidade federal, apesar de mantida pela União, deve servir à comunidade local. Por isso há mais de 50 federais Brasil afora. Todos têm pelo menos uma no seu estado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Retrato falado

Leitores subestimam o valor de categorias da literatura como a de terror e a ficção histórica. Essas pessoas, do alto da arrogância, enchem o peito para explanar sobre Machado de Assis ou Shakespeare. Repito: nem só de Camões vive o homem.

Frankenstein, de Mary Shelley, é ótima experiência. A obra encarna o espírito do século XIX, quando o avanço tecnológico digladiava-se com a fé religiosa. O Romantismo estava no auge, o Realismo engatinhava.

Shelley discute dúvidas que atormentam a humanidade até hoje. Qual a responsabilidade do homem sobre o que ele faz? A ciência deve ter limites? A religião pode regular a tecnologia? Somos produtos do meio?

O livro mostra o paradoxo da evolução humana. Enquanto descobrimos mais sobre tudo, amadurecemos não mais que nada. Os milênios passam, e os preconceitos do homem consigo mesmo perpetuam-se.

De leitura fluente e cheio de (melo)drama, Frankenstein reflete a estupidez da racionalidade. O texto da autora é inocente, ingênuo devido à juventude dela na época da escrita, mas não minimiza o talento criativo de Shelley.

terça-feira, 24 de março de 2009

O erro de sempre na Seleção

O erro que marca a gestão de Dunga à frente da seleção brasileira é insistir no que deu errado, a vulga teimosia.

No gol: convoca o limitado e bem assessorado Doni. Assim, não temos um reserva preparado para substituir Júlio César nem um goleiro jovem em preparação para 2014. Eu escolheria Rogério Ceni para o primeiro reserva, sendo que não precisa convocá-lo para testes, e Renan, do Valência, como o jovem.

Nas laterais: Insiste no voluntarioso e perneta Maicon como titular; Daniel Alves seria melhor. Não convoca o melhor lateral-esquerdo brasileiro hoje: Fábio Aurélio, do Liverpool.

Na zaga: Lúcio e Juan deixaram de ser os melhores zagueiros brasileiros. A dupla deveria ser Miranda e Thiago Silva. Alex Silva, do Hamburgo, e David Luiz, do Benfica, deveriam fechar o quarteto.

Volantes: Hernanes e Ramires. Ainda deixo ele escolher um de três: Josué, Gilberto Silva e Felipe Melo (fraquíssimo).

Meias-armadores: Júlio Baptista não é melhor que Thiago Neves, Alex ou Diego.

Pelo menos resolveu o ataque da Seleção. Luís Fabiano tem que ser o titular. Pato, a duras penas, desenvolveu-se no Milan.

Não esqueci, Dunga

Setores da crônica esportiva conformaram-se com o técnico da Seleção, Dunga. Há quem diga que ele faz bom trabalho.

Não serão as entrevistas emocionadas sobre a história de vida do anão que me farão mudar de idéia. As estatísticas não me enganam. No pega-pra-capar, Dunga só foi bem na final da Copa América, 3 a 0 na Argentina.

Se analisarmos as derrotas em jogos oficiais, desistiremos da Copa de 2010. O Brasil levou um baile - veja bem, um baile - do Paraguai, um timeco, e da Argentina na semifinal da Olimpíada. Fora atuações ruins como a contra o Uruguai no Morumbi, em que o treinador foi salvo pela individualidade dos atletas.

É fácil escorar-se no talento de finalização de Luís Fabiano, nas arrancadas de Kaká e na confiança de Robinho. Não é preciso ser inteligente para convocá-los.

É difícil ver o Brasil dar vexame, não conseguir trocar passes, finalizar pouco. O brasileiro passa raiva com a Seleção desde 1982, com classificações sofríveis para as Copas do Mundo. Exceto, talvez, em 2005, quando o Brasil jogou bem, com Kaká, Ronaldinho, Robinho e um centroavante (prova de que o esquema dá certo).

segunda-feira, 23 de março de 2009

O futuro é o passado

A Google, dona do mundo, implanta aos poucos novo recurso no Gmail. Trata-se da opção undo, desfazer em inglês, por meio da qual o usuário poderá cancelar o e-mail depois de enviado.

Voltar ao passado com o undo é o futuro da humanidade. A opção existe em alguns programas de edição de texto, áudio e vídeo, e considero-a mais importante que o Ctrl+C, Ctrl+V.

Em breve, a dona de casa vai pagar pelo undo tão desesperadamente quanto paga pela máquina de lavar, pela televisão e pelo anti-concepcional. O divórcio, o sal de frutas e a lavagem cerebral cairão em desuso. Homens cancelarão as cantadas mal-sucedidas, virgens retomarão a donzelice.

Nada de carros voadores ou tele-transporte. No horizonte desponta o Ctrl+Z.

domingo, 22 de março de 2009

Air-bag não é a solução para o trânsito

O presidente Lula sancionou mais uma bizarrice do Legislativo brasileiro: a lei que torna obrigatória a presença de air-bag nos carros que circulam pelo país.

Vamos analisar o assunto com o método do ônus e bônus. O ônus é o aumento de milhares de reais nos custos dos veículos. Duvido que os empresários vão reduzir a margem de lucro, logo, o custo cairá nas mãos do consumidor. O segundo problema é a manutenção do sistema. Uma vez acionado, o air-bag não pode ser substituído por um estepe ou recauchutado, é necessário pagar de novo por ele.

O bônus alegado - salvar vidas - deve ser almejado de outra maneira. Em vez de mobilizar assessores e parlamentares para aprovarem questões secundárias, poder-se-ia usar o tempo deles para aprovar legislação capaz de evitar o acidente de trânsito, não remediá-lo. Seria o caso de investir na preparação de motoristas, fortalecer o transporte coletivo e revitalizar estradas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Manda prender, não manda soltar

O Senado suspendeu a construção de uma cela nas dependências da instituição. Ela serviria para prender quem cometesse crime dentro da casa.

Não, gente! Construam! Sobram merecedores de prisão no Senado, na Câmara dos Deputados, no Tribunal de Contas da União...

PS: uma das diretorias extintas no limpa que o primeiro secretário, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), está fazendo é a diretoria para manutenção de ar-condicionado.

Fanáticos

O Jornal Hoje, da TV Globo, veiculou reportagem sobre a visita do papa Bento XVI a Angola. A matéria relembra a comemoração de 500 anos da evangelização do país, no papado de João Paulo II.

A evangelização de africanos e latino-americanos foi um dos maiores estupros culturais da humanidade. A Igreja invadiu países, penetrou em nações fragilizadas pelo colonialismo europeu e foi conivente com a escravidão, tudo sob o pretexto de salvar supostos bárbaros.

Bárbaro é quem destrói a cultura, a língua e a religião dos outros, patrocinando genocídios e preconceitos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O homem não gosta de si mesmo

A ficção histórica Spartacus, do estadunidense Howard Fast, é um grande tema nas mãos de um escritor pouco talentoso. O leitor deve ser paciente e ler até a página 100 para a leitura empolgar. Os diálogos são artificiais, e as descrições das cenas de batalha, apressadas e incompletas.

Porém, a estrutura da obra foi bem feita. Fast conta a história com dois enredos que se cruzam: o luxo dos cidadãos romanos e a miséria do resto. O livro mostra o desprezo do ser humano por si mesmo. Os romanos tratavam bem os gladiadores para fazer deles máquinas de morte, enquanto tratavam mal os demais escravos, que colhiam alimento e extraíam minerais, produzindo vida.

A quem gosta de ficção histórica recomendo ler Bernard Cornwell. O britânico escreveu livros como O condenado, sobre a Londres do século XIX, As crônicas de Artur, sobre a Inglaterra do século VI, e A busca do Graal, sobre a Guerra dos Cem Anos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Gangrena e gangorra americanas

Contém spoilers.

Uma linha liga os filmes Gangues de NY e O gângster à atualidade. O primeiro retrata o embrionário Estados Unidos durante a Guerra de Secessão, sintetizado em Nova Iorque. A cidade era dividida quanto a ideologias, culturas e religiões, assim como o país dividia-se em norte e sul, em abolicionistas e escravocratas e em interesses faccionistas em detrimento da que veio a ser vencedora: a União.

Um século adiante, chegamos ao contexto do segundo filme, ambientado no poderoso Estados Unidos pós-guerras mundiais, que metia os pés pelas mãos no Vietnã, onde foi derrotado. O protestantismo dominou a nação, os faccionistas perderam o debate político, mas permanecem duas mazelas do século XIX: a discriminação racial e a corrupção do poder público.

Gangues de NY é uma carnificina maior que Kill Bill, tem em Amsterdan Vallon (DiCaprio) um fraco protagonista, mas reproduz com fidelidade a construção da identidade americana e deleita-nos com a atuação de Daniel Day-Lewis como o açougueiro de sugestivo nome, Bill Cutting.

Mais bem feito, O gângster traz os brilhantes Denzel Washington (o traficante negro Frank Lucas) e Russel Crowe (o incorruptível detetive Roberts). Baseado em fatos, apresenta três aspectos dignos de ficção: o sucesso e glamour do traficante negro que superou a máfia dos brancos; o incorruptível policial que devolve US$ 1 mi em vez de embolsá-lo - e que deixa todos pasmos por isso; e o epílogo do filme, que mostra a condenação e o cumprimento da pena de traficantes e corruptos.

Por fim, chegamos aos dias atuais. A negritude chegou à Casa Branca, Nova Iorque tornou-se a capital do mundo, a intolerância religiosa continua, novos corruptos surgiram e as pessoas ainda estranham quando alguém toma atitude honesta em vez de tirar vantagem de todas as situações.

terça-feira, 17 de março de 2009

O trabalho de Clodovil

O deputado federal Clodovil Hernandes apresentou proposta de emenda constitucional (PEC) que reduziria o número de deputados na Câmara de 513 para 250.

A PEC não será aprovada nos próximos 700 anos, mas, assim, ele fez mais pelo país do que muito dinossauro do Congresso Nacional. E não se envolveu em escândalo de corrupção, não que eu saiba.

Os pobres e os loucos

Volta-e-meia o noticiário mostra maníacos chacinando coleguinhas na faculdade ou desconhecidos no cinema. Os exemplos clássicos são de estrangeiros. No Brasil, acontecem menos bizarrices como essas. Os grandes e freqüentes assassinatos daqui têm a ver com dinheiro.

Isso acontece porque no Brasil há defasagem social e no exterior há defasagem psicológica. Os nossos criminosos cotidianos são pobres, os deles são loucos. Enquanto o ladrão/assassino brasileiro quer comprar marmita ou comprar tênis de marca, o ladrão/assassino estrangeiro quer canalizar a frustração com a vida e, por isso, metralha os outros.

Eles, os verdadeiros bárbaros, a verdadeira anti-civilização, se suicidam na própria mentalidade consumista, acumulativa e competitiva. No Japão, pessoas que perdem emprego se matam; na Áustria, um homem prendeu a filha durante 24 anos e teve sete filhos com ela; nos EUA, uma dupla de assaltantes matou sem motivo a família Clutter, nos anos 50.

Infelizmente, nós, brasileiros, convivemos com tragédias como a do casal paranaense em que a menina foi baleada e estuprada, e o rapaz, morto; a do menino João Hélio; a das jovens Eloá e Isabella. Mas se compararmos os nossos problemas com os deles concluo que o mundo rico enlouqueceu.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A "geração tanto faz"

Da coluna de Gilberto Dimenstein na Folha Online:

"É consenso entre educadores que se dissemina a chamada 'Geração Tanto Faz', composta de crianças e adolescentes cercadas de proteção e, por isso, sem treino para suportar obstáculos e frustrações. Tudo tem de ser fácil e imediato --e divertido."

Jovens fiéis leitores, nascidos nos anos oitenta e criados com o bom e o melhor, atenção. Somos passíveis de contrair o vírus da geração tanto faz. Sinto que ele corre nas minhas veias, confesso. Sou cheio de projetos, mas a preguiça pretende destruí-los.

Rebelemo-nos! Não aceitemos a derrota!

quinta-feira, 12 de março de 2009

A crise não existe

Pronto, acabei com essa balela de crise, mudemos de assunto. O mundo não está em crise!

Acostumamo-nos a ver as coisas do ponto de vista errado. Estranho não é crescer pouco, mas crescer 10% como a China atual e o Brasil dos anos 70. Não há natureza que agüente tamanha sangria de matéria-prima e tamanha descarga de toxinas nas águas e no ar.

O capitalismo divulgou que produzir, produzir, produzir é positivo. Errado. Podemos viver com menos. A população não cresce tanto a ponto de justificar aumentos estratosféricos de PIBs. Malthus errou, esqueceram?

O empresariado quer produzir descontroladamente para vender e lucrar, não porque querem garantir suprimentos ao mundo. Se há fome, o problema é a distribuição mal-feita, não a produção baixa. Se há desemprego, o problema é a má qualificação dos desempregados; no Brasil sobram oportunidades de trabalho na área tecnocientífica. Mas todo mundo quer ser servidor público! Aí não dá mesmo.

A economia mundial está em colapso porque especuladores irresponsáveis deram crédito fantasma para consumidores irresponsáveis. Criminosos deram dinheiro inexistente para pessoas sem dinheiro gastarem à vontade. No fim das contas, o contribuinte mundo afora recebeu o encargo de tapar o rombo.

Se gastarmos só o que pudermos, sem cair no conto do vigário dos banqueiros, o mundo volta ao normal. Quando isso acontecer, deveremos pôr na cabeça mentalidades mais humildes quanto a crescimento econômico. Assim, riscaremos do cotidiano a crise, palavra que ficou chata.

Viola e sanfona estão esquecidos no baú da vovó

Vi a programação provisória da Festa Nacional do Milho, tradicional festa comemorativa do aniversário da cidade de Patos de Minas, Triângulo Mineiro.

Corremos o risco, fiéis leitores, de termos na festa a banda NX Zero. Sim, NX Zero. Isso para o amante do sertanejo romântico-baboso-de raiz é ultrajante. Além disso, tornou-se tradicional nos últimos anos a existência de tenda eletrônica no parque agropecuário.

Por favor, tragam-me os sais.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O livro grande do nem tão grande ditador

Os dois volumes da biografia Hitler, do jornalista alemão Joachim Fest, são tijolos de informação sem criatividade. As 950 páginas (entre texto, milhares de notas e índice) matam a curiosidade do leitor sobre a vida do austríaco que achava ter sangue puro e servem como documento da História, mas não empolgam.

Não esperem jornalismo literário da obra. Não há construção de diálogos, valorização das personagens ou qualquer característica de romance. Fest escreveu densas páginas à la historiador. A biografia é tão somente informação sem esforço estético. Reserve concentração para absorver a leitura.

Tampouco espere entender a lógica diabólica dos campos de concentração, as táticas aliadas, as figuras como Churchill, Stalin ou Roosevelt. Os livros concentram-se apenas em Adolf Hitler, não são tratados sobre a Segunda Guerra Mundial ou o nazismo. O que se pode ver são as fraquezas de um guia (führer) nem tão grandioso, habilidoso e inteligente como pode-se pré-conceber.

Por fim, além do catatau de dados e o mar de notas, o exagero de artigos indefinidos prejudica a leitura. Não sei se erro de tradução ou má escrita do autor (na edição da Nova Fronteira).

terça-feira, 10 de março de 2009

Será que vai chover?

Presencio pela janela do meu quarto um dos mais belos espetáculos da vida: a chuva. Ela embala o beijo apaixonado dos casais, revela as curvas das mulheres vestidas de branco, refresca o ambiente, sacia a sede dos animais.

Porém, não somos dignos do choro dos céus. Machucamos cada gota ao expelir toxinas na atmosfera e ainda temos a cara-de-pau de apelidá-la de chuva ácida. Ácidos somos nós, seres desumanos, que se enfurnam em escritórios enquanto a natureza pulsa lá fora.

Ácidos somos nós que nos obrigamos ao calor dos ternos e à forca das gravatas enquanto poderíamos nos refrescar com a água benta das nuvens. Ácidos somos nós que encarceramos a água da chuva nas ruas porque entupimos os bueiros.

Até quando vai chover?

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mulheres merecem mais

Ontem um parente me ligou e perguntou:

- Deu parabéns à Patrícia?

Não via motivo para parabenizá-la.

- Do que você tá falando?

- Hoje é Dia da Mulher! - como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Ah, eu não dou bola para isso.

Em vez de parabenizar a minha namorada em 8 de março, prefiro respeitá-la todos os dias do ano. Prefiro ser-lhe fiel e ser presente, carinhoso, participativo, interessado. As mulheres merecem mais que datas comerciais (atenção, quem manda no mundo é a Michelle Obama).

O empresariado deveria promover a igualdade salarial e o fim do assédio moral/sexual, e não promover comemorações ilusórias e alucinógenas.

sábado, 7 de março de 2009

A igreja não pode se meter na vida das pessoas

O chilique do Vaticano e da CNBB quanto ao aborto da menina de nove anos estuprada pelo padrasto é injustificável. Liderança de qualquer igreja ou de qualquer outra instituição influente não pode se comportar assim.

O sofrimento imposto à menina é suficiente para marcá-la em definitivo, a Igreja não deve polemizar e esticar o assunto, basta a imprensa fazer isso. Todos deveriam dar assistência à jovem, ponto final.

O aborto foi a melhor opção. Crianças não têm estrutura psicológica, física, social e financeira de cuidar de crianças, ainda mais se a origem do problema estiver na barbárie do estupro. Elas precisam de carinho, encorajamento, escola e brinquedo, não de alguém as obrigando a serem mães.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A legislação defende a impunidade

O STF decidiu que foragidos - veja bem, fo-ra-gi-dos - podem recorrer a sentenças judiciais. O meliante não dá as caras perante a Justiça, mas pode lançar mão dela. Isso me lembra a decisão de que condenados nas instâncias iniciais podem ficar em liberdade até o recurso final.

Oras, se o acusado foge da Justiça, não há porque dar a ele as benesses dela. No segundo caso, a condenação em primeira instância é motivo suficiente para prender alguém. Do contrário, não há legitimidade no julgamento do juiz de primeiro grau. De que adianta ele se manifestar se a sentença dele não serve para nada? O culpado tem o direito de recorrer, sim, mas a Justiça decidiu que, a princípio, ele é perigoso para a sociedade.

Enquanto o Código Penal permanecer defasado - data dos anos 40 -, os juízes estão obrigados a proferirem sentenças bizarras, afinal, eles devem decidir conforme a lei. Logo, a culpa cai sobre o Congresso Nacional, que prefere omitir-se a respeito do que importa ao Brasil: reforma política e tributária, atualização da legislação, transparência no voto dos parlamentares.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ronaldo deve jogar enquanto der conta; Souza deve jogar nunca

Os 27 minutos de futebol de Ronaldo ontem me agradaram, pensei que ele estava muito pior. Não, ele está melhor que Souza. Coloque-se o Ronaldo enquanto ele der conta, depois deixe o Corinthians com dez jogadores. Devolvam o Souza para o Flamengo.

A partir de agora, Ronaldo deve ganhar condicionamento físico e atuar em jogadas rápidas. Não arrancando do meio-campo como antes, mas tabelando e driblando em espaços curtos, próximo ao gol, processo por que passou Romário.

PS: Ronaldo deu entrevista exclusiva para a Globo e ignorou as outras emissoras. Desrespeito com o torcedor que assiste a canais de verdade.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contra as mesas-redondas quadradas

O fiel leitor conhece a minha desatualização quanto a cinema. Por exemplo, eu vi Onde os fracos não têm vez no último fim de semana, mais de um ano após o lançamento do filme. E o meu desconhecimento chega a outras áreas como a tecnologia.

Instalei TV a cabo em casa e descobri as maravilhas das mesas-redondas de futebol na TV fechada. Ao contrário das mesas na TV aberta, naquelas há menos debatedores, permitindo que as pessoas falem mais tempo sem interrupção, e há melhores profissionais, que te respeitam, que não gritam.

Descobri também que o Galvão Bueno é inconveniente em qualquer programa, em sinal aberto ou fechado. Basta assistir ao programa Bem, amigos. E que o narrador-cordeirinho Luís Roberto vira um leão nos debates. Tudo, claro, sem contrariar os interesses de transmissão da Globo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Ensaio sobre o Ensaio

Um dos quatro melhores livros que li é o Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Nele o português despe o ser humano e escancara o quanto podemos ser covardes, incapazes, limitados, perversos e pervertidos.

O Ensaio mostra, como o Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, que o tempo é cíclico e que as coisas não mudam. Não adianta o progresso tecnológico e o avanço da medicina, a humanidade sempre vai esbarrar na própria ignorância (palavra esta com dois sentidos). Assim como não soubemos lidar com a lepra e com a peste negra, os personagens de Saramago caem impotentes perante as suas frágeis condições de seres humanos e repetem os erros dos antepassados. O leitor deve ficar atento ao final da obra, que não é uma mensagem de esperança como pode soar à primeira vista, mas apenas o ciclo da vida.

A minha lista de livros preferidos continua com Os lusíadas, do também português Luís Vaz de Camões - burro é quem espalhou a calúnia sobre a inteligência dos portugueses -; o referido Cem anos de solidão; e A saga dos Foxworth, de Virginia Cleo Andrews, série de cinco livros que retrata os Estados Unidos melhor que O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, tido como o melhor romance estadunidense.

Cassem um dos demônios

Edmar Moreira (DEM), que se deputa na Câmara dos Deputados, reapareceu no Congresso Nacional após 25 dias (nenhum repórter questionou se ele vai receber o salário equivalente a cinco dias - se ele trabalhar durante os cinco dias). O democrata foi notificado para esclarecer o suposto uso indevido de verba indenizatória.

Há quem sinta cheiro de pizza na Câmara, pois em nenhum lugar está escrito que gastar verba indenizatória com a própria empresa seja ilegal (ele contratou serviço de segurança privada prestado pela empresa de que é dono). Logo, não há como puni-lo.

Porém, não é preciso cursar cinco anos de direito e submeter-se à OAB para saber que há dispositivos jurídicos para cassar Edmar Moreira. Basta ler a Constituição Federal (grifos do coveiro):

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...)

Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:

II - cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar; (...)

PS: aproveitem e não votem em Edmar Moreira.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Quando a marra deve ser exaltada

Um dos meus jogadores preferidos é o Anderson, do Manchester United. Ele é o tipo de jogador marrento que na hora do jogo decide. Ou seja, ele tem o direito de ser marrento.

Anderson decidiu a favor de seu time na Batalha dos Aflitos, na Liga dos Campeões e, ontem, na Copa da Inglaterra (ou da liga inglesa, não importa), nas duas últimas fechando a cobrança de pênaltis.

Questionado por um jornalista após a partida, Anderson, ex-sem-teto, propiciou-nos o seguinte diálogo:

- Anderson, é difícil essa responsabilidade de bater o pênalti decisivo?

Ele respondeu, sem titubear:

- Difícil é morar na rua.