O terrorismo sob ótica árabe é a proposta de O atentado, do argelino Yasmina Khadra. Por isso, a princípio, a obra valeria a pena para ocidentais americanizados, como os brasileiros. Contudo, a menos que se tenha lido tudo o que o melhor da literatura mundial tenha a oferecer (incluído o árabe As mil e uma noites), O atentado pode esperar no fim da fila.
Khadra opõe, por meio do protagonista (Amin Jaafari) - israelense de origem árabe -, o individualismo ocidental ao nacionalismo extremista. Amin busca ao longo da história explicação para a transformação da esposa em mulher-bomba. As respostas são dignas de vídeos do Bin Laden. Se o intuito da obra é a visão unilateral do terrorismo, objetivo cumprido. Porém, se houvesse o confronto com os seguintes questionamentos, o livro seria melhor.
Primeiro, os personagens pró-terrorismo, que argumentam serem pessoas de bem, não explicam o motivo de explodir inocentes (exceto o óbvio de causar pânico). Segundo, esses mesmos personagens demonstram desprezo à vida dos próprios colegas de causa; em um diálogo, um deles explica a Amin que a esposa não devia se suicidar pois ela era mais importante viva, ou seja, há pessoas que são mais importantes mortas. Se o ato kamikaze é tão nobre, por que os líderes terroristas não se matam?
Outro problema está no tempo verbal predominante na escrita. Khadra, pelo menos na tradução da Sá Editora, usa o presente do indicativo com narração em primeira pessoa. Então, o narrador diz "eu como", "eu acordo", "eu ando". Assim, há dois Amins conflitantes: o que narra enquanto o outro age, provocando incoerência. É diferente de narradores-personagens que contam histórias após elas terem acontecido, como Bentinho, de Dom Casmurro, ou Carraway, de O grande Gatsby. Nestes o personagem é um só.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
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