terça-feira, 30 de junho de 2009

Sangue ainda lava a honra

O hábito antigo de que honra se lava com sangue permanece na contemporaneidade. A diferença está em quem empunha a espada adversária. Antes o duelo travava-se contra o pai da moça de donzelice roubada; o assassino de amigo ou parente; o inimigo ideológico. Hoje o embate se dá contra a opinião pública.

Após morrer, Michael Jackson tornou-se o deus da música, o reinventor da arte. Os fracassos recentes dos discos encalhados nas lojas e as dívidas ficaram em segundo plano. (Assim é fácil ficar rico: pegar dinheiro dos outros e não devolver).

Exemplo do ungido pela morte e salvo das garras da opinião pública é Getúlio Vargas. O ditador proto-fascista, convencido o suficiente para se colocar na história, tornou-se mártir adiando em dez anos o golpe militar no Brasil. Os desmandos do Estado Novo deram lugar à imagem de grande estadista.

No caso Michael Jackson formou-se a espiral do silêncio, como o repórter Gabriel Castro, da Rádio CBN, chamou-me a atenção. Essa teoria diz que a opinião comum de um grupo numeroso e/ou influente inibe a manifestação de idéias discordantes. Não se pode achar a música de Michael Jackson ruim sem represálias.

Resta-me o desprazer de pela primeira vez concordar com Diogo Mainardi. A música de Jackson é cafona, comercial e temporal.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vai tu mesmo, sem Robinho

O Brasil fez boa Copa das Confederações. Os dois piores jogos do time, contra Egito e África do Sul, foram situações normais: relaxamento após fazer 3 a 1 e dificuldade contra o time da casa.

Dunga tem méritos, o principal é escutar a imprensa esportiva e a torcida nas escalações de Ramires e Daniel Alves. Se trocar Robinho por Pato e Gilberto Silva por Anderson, o time decola de vez.

A ausência de Diego e Fábio Aurélio são preocupantes. O primeiro merece a vaga de Júlio Baptista, o segundo merece chance na lateral-esquerda.

Felipe Melo jogou muito na final e Luís Fabiano assumiu a vaga de centro-avante em definitivo. Se Lúcio jogar até a Copa do Mundo o que jogou nos últimos jogos, cala-me quando eu disse que ele não podia ser mais o titular da zaga.

Ainda tivemos o prazer de assistir contra os EUA ao Brasil pressionar o adversário. Só não entendo como o time levou dois contra-ataques se temos um carregador de piano, aquele cuja função ninguém entende, que está ali só para proteger a defesa.

domingo, 28 de junho de 2009

A companhia dela

O silêncio afogava-o no estacionamento cheio de imensidão até que o barulho da porta do carro fechando o restagou à superfície da realidade. Impossível não denunciar a própria presença, pois o eco dos movimentos funcionava como radar.

Ela sabia que ele ali se encontrava; seguiu-o. Ele desconfiava não estar só, mas afastou tal idéia, devia ser apenas impressão. Metros adiante do carro, surgiu a primeira alma viva: propagandas na tela de um caixa eletrônico. Ela escondeu-se atrás da máquina.

Dirigiu-se às escadas. Regozijou-se ao ver a capela aberta, caso precisasse, apesar da hipótese de haver ali algo pior que demônios. Subiu os degraus pressionado pelas paredes como se saísse de uma catacumba. Ela fez o mesmo trajeto logo depois.

Havia apenas os dois no andar de cima, ele sem ter certeza dela. Apesar da sensação de vigilância, o que mais lhe incomodava era a parede externa do prédio, espelhada. À noite, quem está dentro do edifício vê o próprio reflexo na parede espelhada e quem está fora vê tudo lá dentro.

Ele girou as chaves na maçaneta da sala, fazendo barulho tanto quanto havia silêncio. Aprumou-se, ligou o computador caso houvesse emergências e retirou da sacola manuscritos milenares para entretê-lo. Às 2h, o sono minava-lhe a concentração. Dormiu.

Acordou às 3h e viu que tudo estava em ordem. Dormiu até as 4h, tudo estava em ordem. Dormiu até as 5h, em ordem. Acordou em definitivo às 6h, apreciou a aurora e leu um pouco mais. Logo soaram as badaladas do fim. Juntou o que trouxe e partiu.

Ela nada fez.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Oba-oba

Em cinco meses de governo, Barack Obama corresponde às expectativas. Demonstrou vontade política na questão de Guantánamo, elaborou projeto para conter a libertinagem no mercado financeiro, reconheceu o fracasso da Guerra no Iraque.

Talvez não seja brilhantismo de Obama, talvez qualquer presidente na atual circunstância tomaria as mesmas medidas. Fato é que o comportamento do presidente americano não seria aceito no pós-11 de setembro, mas é o necessário após dois governos da família Bush.

Talvez este coveiro precipita-se, como o Brasil fez no começo do governo Collor.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Ninguém segura

As manchetes sobre o Senado escancaram defeito da República brasileira: a tripartição dos poderes. O princípio de freios e contra-pesos delineado pelo frânces Montesquieu não breca o legislativo.

O Congresso Nacional pode derrubar vetos do presidente da República, que indica os ministros do Supremo Tribunal Federal, que são sabatinados pelo Congresso; poder-se-ia citar outros exemplos de controle do Executivo e do Judiciário. Contudo, na última instância, ninguém segura o parlamento.

Deputados e senadores estipulam o próprio salário. Se o TSE elimina a farra de vereadores, o Congresso aprova lei a favor dela. Quem julga os parlamentares nos processos de desvio de conduta? Eles próprios.

Em curto prazo, apenas o eleitor pode dar um basta. Comecemos pelos dinossauros José Sarney e Renan Calheiros e pelos deputados de alcunha engraçada, o do castelo e o que se lixa.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornalismo de romance

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã".

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 9.


Não é spoiler, é o estilo de Gabriel García Márquez de começar romances: com impacto. Crônica de uma morte anunciada reflete os mitos verídicos da vida desse colombiano que escreve criativo como ficcionista e atento como jornalista. Muito da obra vem das experiências do autor, basta compará-la com a auto-biografia Viver para contar.

Se Truman Capote cunhou o romance de não-ficção, Crônica... é o jornalismo de romance. O narrador-personagem investiga e reconstrói um crime e os costumes provincianos de uma terra onde se escreve justiça com sangue e onde a verdade é secundária perante as aparências.

Sem a complexidade e a extensão do ápice Cem anos de solidão, o livro serve como introdução aos clássicos da literatura e, somado a Memórias de minhas putas tristes e Relato de um náufrago, como base para apreender a saga dos Buendía.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Limbo retórico

Sou a favor da obrigatoriedade de diploma de jornalismo para repórteres, não para jornalistas.

Todo repórter é jornalista, mas nem todo jornalista é repórter, pode ser um articulista. O repórter encontra fatos e explica-os ao público; o articulista opina. Este deve conhecer o assunto de que trata, o que só terá com qualidade no ensino superior. Aquele deve conhecer métodos de entrevista e de pesquisa, o que só terá com qualidade no ensino superior de jornalismo. Ambos devem dominar a Língua Portuguesa.

(Excluamos as exceções como auto-didatas geniais).

O principal argumento contra a exigência, a liberdade de expressão, não passa de limbo retórico, de pretexto. Quando se pretende melhorar o jornalismo, levanta-se a blindagem oportunista da liberdade. Desejar qualificação dos profissionais da imprensa não atenta contra a ela, atenta contra a libertinagem.

Exigir o diploma dos repórteres não significa não mexer nos cursos de jornalismo. O da Universidade de Brasília por exemplo, um dos melhores, ensina mais a executar do que a pensar.

A decisão do Supremo Tribunal Federal não deve alterar a iniciativa privada, mas conduzirá a comunicação pública ao pandemônio. As assessorias de imprensa estarão à mercê dos concurseiros profissionais.

Caiu o anão errado

O São Paulo deveria ter mantido Muricy Ramalho. A melhor estratégia é continuidade, ainda mais para quem comprovou talento com a conquista de três campeonatos nacionais seguidos.

Alex Ferguson, a 20 anos treinador do Manchester United, não ganha a Liga dos Campeões todo ano.

Tenho inúmeras críticas a Muricy: a desastrosa e interminável titularidade de Richarlyson; a preferência pelo caneleiro Eduardo Costa; o padrão tático de jogo aéreo.

Contudo, a fase do time é culpa também dos jogadores: Washington, mimado; Hernanes, apagado; Dagoberto, improdutivo.

O ideal seria juntar os cacos com o treinador, esperar a turbulência passar. Nomes como Nelsinho Batista e Abel Braga são de nível inferior ao de Muricy. Paulo Autuori, Felipão e Luxemburgo estão inacessíveis.

Pena Dunga resistir mais que Zangado.

sábado, 13 de junho de 2009

Nem sempre Deus porá a mão no fogo

"Eis que estamos de novo no limite do bom senso, exatamente onde os seres humanos perdem a razão. Por que fazes acordo conosco se não podes cumpri-lo? Desejas voar e não te sentes seguro ante a vertigem? Nós que te procuramos ou tu que nos invocaste?"

Mefistófeles, o inimigo da luz, em Fausto, de Goethe. São Paulo: Nova Cultural, 2002, p. 203.


A poesia de Fausto é mais do que alusão ao embate entre Deus e o diabo, o sagrado e o mundano, a vida e a morte. O pacto entre Fausto e Mefistófeles representa nossas escolhas.

O enredo parafraseia a aposta entre Deus e o demônio sobre a conduta de Jó, personagem bíblico dono de posses, chefe de família e temente ao Senhor. Satã desafia o orgulho de Deus sobre tão valoroso fiel, propondo-lhe atormentar Jó a fim de conferir-lhe a fé. Deus aceita o embate, e Satanás destrói a vida de Jó, que permanece temente a Ele.

Fausto também é posto em prova. Culto, polivalente e ambicioso, sofre as tentações do diabo. Mas Fausto é Jó às avessas, fraco de espírito, de caráter e de fé. Insatisfeito com a própria vida, decide suicidar-se. Mefistófeles o impede. Atencioso com as frustrações do protagonista, o demônio propõe lhe servir na vida, em troca de vassalagem na morte.

Mais do que os fantasmas da Idade Média e os da humanidade, a obra do escritor alemão Goethe questiona o leitor sobre o que ele está disposto a fornecer em troca de dinheiro, juventude e amor.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Vô casmurro

José Sarney é péssimo avô, não procura se informar sobre a vida dos netinhos.

Desconhece que um deles participa de nepotismo cruzado no gabinete do senador Cafeteira, recebendo R$ 7 mil por mês, sem ter formação acadêmica.

Virada melhor que goleada

O Brasil jogou melhor contra o Paraguai do que contra o Uruguai.

A defesa mostrou que joga bem com um cabeça-de-área, Felipe Melo. Ou seja, Gilberto Silva deve ser trocado por alguém mais habilidoso que preencha o meio-campo: o onipresente Ramires, por exemplo, que não pode ser preso na direita como Dunga insiste em fazer. Jogador bom movimenta-se por todo o campo.

Não gosto de Felipe Melo, mas ontem ele fez a melhor partida pela Seleção. Exceto quando ele julgava ser o Gérson, desarmou com firmeza e deu excelente assistência no gol de Nilmar, funções do bom volante. Se Hernanes não recuperar a boa fase, reconheço que Felipe Melo merece a titularidade.

Entretanto, não se pode embarcar no papo da Globo, que não cobre a Seleção de forma crítica. Dunga, pela inexperiência, não enxerga erros básicos, mas graves. O maior deles é o fato de os jogadores atuarem afastados um dos outros. Quando um toca a bola, foge do companheiro, deixando-o sem opção.

PS 1: Daniel Alves prova ser melhor que Maicon.

PS 2: Apesar da difícil finalização no segundo gol, Robinho merece a reserva, pois nos últimos jogos desperdiça inúmeras jogadas de ataque, seja ao perder a bola, seja ao não saber o que fazer com ela.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Como escritor, ótimo goleiro

"Mário Sérgio me chamou para uma conversa reservada:

- Vem cá, vieram me falar que você não gosta de mim, que não queria que eu fosse contratado, que eu sou filho da puta...

Não contra-argumentei a ordem de parar de bater faltas, mas aquela segunda conversa era demais.

- É simples - respondi. - O senhor traz pra cá agora quem disse isso, e a gente comprova se é verdade ou não."


Rogério Ceni, em Maioridade Penal. São Paulo: Panda Books, 2009, pp. 77-8.


Maioridade penal é tão imaturo quanto um adolescente de dezoito anos recém-completados. Se a proposta do livro é servir de memórias para Rogério Ceni, objetivo cumprido, temos um diário. Se a idéia é a de fazer jornalismo, como a profissião do co-autor André Plihal sugere, nada feito.

Com capítulos curtíssimos e discurso em primeira pessoa, em nome do goleiro, a obra frustra por manter lacunas e sonegar detalhes da carreira de Rogério Ceni. Em vez de explorar o material disponível na imprensa e inúmeras fontes vivas e lúcidas, André Plihal apenas conta as versões do protagonista. A oportunidade de retratar torneios, situações e personagens que comporiam o contexto da carreira de Ceni foi perdida. Maioridade penal é auto-promoção. Aliás, a concepção é precipitada. Feito antes de Rogério pendurar as chuteiras, o livro não conta a história da pior contusão do goleiro, ocorrida após o lançamento.

Se os autores queriam sair bem na foto, ótimo, não se discute o estilo adotado. Porém, seria mais interessante para o registro histórico e para os torcedores de futebol trabalho mais crítico, encorpado e investigativo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O galático e o folclórico

Duas notícias martelam a minha cabeça quanto a futebol: Kaká no Real Madrid e Obina no Palmeiras.

A transferência do primeiro rumo à Espanha foi boa para os madridistas e os milanistas, mas não para o jogador. O clube espanhol contratou o melhor meia-atacante do mercado, o clube italiano arrecadou dinheiro necessário. Por outro lado, Kaká vai jogar em um time desorganizado no campo e na diretoria, sem zagueiros, volantes e presidente de qualidade.

A ida do segundo rumo a São Paulo é catastrófica para os porcos. A lerdeza nas contratações do Flamengo é recompensada com as negociações de jogadores fracos, vide a saída de Souza para a Grécia meses atrás. Enquanto o flamenguismo exigia de Obina apenas ser motivo de piada, ele dava conta do recado; quando quiseram um centroavante, quebraram a cara.

domingo, 7 de junho de 2009

Veja se seu parlamentar tem ficha-suja

Imperdível a lista do Congresso em foco de parlamentares processados no Supremo Tribunal Federal.

O coveiro defende que se o candidato for condenado em primeira instância, não merece voto. Proposta do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) determina que essa condenação impeça candidatura. Aqui há presunção de culpa.

O senador Pedro Simón (PMDB-RS) tramita projeto em que candidatos processados não podem se candidatar, o que é exagero, pois há o risco de inocentes serem barrados. Aqui há presunção de inocência.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pormenores da imensidão

Vitória. Há leituras com as quais devemos brigar a fim de terminá-las. Vale a pena o desafio de Grande sertão: veredas.

Guimarães Rosa cumpre os requisitos do melhor da literatura. Primeiro, acima de tudo, monta narrativa misteriosa que instiga o leitor a virar a página. Segundo, escreve com estilo próprio, fugindo do simplista, como se o básico não satisfizesse. Terceiro, extrapola os limites do entretenimento e põe-nos a pensar. O autor discute o humano e o sobre-natural, a sociologia e a política, o amor e a guerra.

Não basta vontade de ler o livro, é preciso esforço. As primeiras oitenta páginas sondam o leitor para ver se ele está disposto a chegar à página 600, a última. Senão, nada feito: o preguiçoso perder-se-á nas palavras de Riobaldo, o narrador-protagonista. Contudo, superada a primeira barreira, surge a recompensa.

O diálogo em forma de monólogo entre Riobaldo e o forasteiro - ou seja, o leitor - é tijolo sem capítulos, sem interrupções. Enquanto a linguagem regionalista não se incorporar ao cérebro, o romance é indomável. Dicionário ajuda; nem tudo de diferente em Guimarães Rosa é neologismo. Compreendida a leitura, as dificuldades são suportáveis. Nonada.

Recomendo a edição comemorativa da editora Nova Fronteira, de 2006, por trazer elucidativo prefácio de Paulo Rónai.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Os donos do poder

O sumiço do avião da Air France intensificou a presença dos urubus intelectuais no noticiário: os especialistas.

Em todos os veículos de informação pipocam detentores da verdade propalando o que deveria ser feito a respeito de tudo, desde o tempeiro da comida da tripulação a detalhes no projeto original de Santos Dumont.

Preguiçosos ao apurar, jornalistas encostam-se no sabe-tudo para embromar horas e horas, páginas e páginas de conteúdo. Ou então as chefias de redação pressionam tanto os repórteres que espremem deles material pouco informativo e muito especulativo.

Exercício de retórica

Um dos argumentos preferidos da oposição ao petismo era o de dizer que Lula governou apenas em marolinhas.

Sendo o Brasil um dos países mais fortalecidos perante a suposta atual crise internacional, o discurso terá de ser outro.

Perdemos com a vitória de Brasília

Minha vaguíssima esperança de Brasília não sediar a Copa de 2014 foi para as cucuias. Mesmo que os R$ 400 milhões a serem desembolsados na reforma do Mané Garrincha venham da iniciativa privada, está aberta a possibilidade de corrupção na obra. A ocasião faz o ladrão.

O Pan de 2007, no Rio de Janeiro, mostrou que o Brasil não tem estrutura e cultura para organizar eventos tão grandiosos. O governo federal gastou R$ 3 bilhões então.

Além disso, assim como o legado do Pan tornou-se herança maldita, o legado da Copa - principalmente em Brasília, por não ter tradição no futebol - será desastroso. O que fazer com um estádio de primeiro mundo em terra de times de quinta?

PS: a birra das cidades derrotadas é infantil.