domingo, 28 de junho de 2009

A companhia dela

O silêncio afogava-o no estacionamento cheio de imensidão até que o barulho da porta do carro fechando o restagou à superfície da realidade. Impossível não denunciar a própria presença, pois o eco dos movimentos funcionava como radar.

Ela sabia que ele ali se encontrava; seguiu-o. Ele desconfiava não estar só, mas afastou tal idéia, devia ser apenas impressão. Metros adiante do carro, surgiu a primeira alma viva: propagandas na tela de um caixa eletrônico. Ela escondeu-se atrás da máquina.

Dirigiu-se às escadas. Regozijou-se ao ver a capela aberta, caso precisasse, apesar da hipótese de haver ali algo pior que demônios. Subiu os degraus pressionado pelas paredes como se saísse de uma catacumba. Ela fez o mesmo trajeto logo depois.

Havia apenas os dois no andar de cima, ele sem ter certeza dela. Apesar da sensação de vigilância, o que mais lhe incomodava era a parede externa do prédio, espelhada. À noite, quem está dentro do edifício vê o próprio reflexo na parede espelhada e quem está fora vê tudo lá dentro.

Ele girou as chaves na maçaneta da sala, fazendo barulho tanto quanto havia silêncio. Aprumou-se, ligou o computador caso houvesse emergências e retirou da sacola manuscritos milenares para entretê-lo. Às 2h, o sono minava-lhe a concentração. Dormiu.

Acordou às 3h e viu que tudo estava em ordem. Dormiu até as 4h, tudo estava em ordem. Dormiu até as 5h, em ordem. Acordou em definitivo às 6h, apreciou a aurora e leu um pouco mais. Logo soaram as badaladas do fim. Juntou o que trouxe e partiu.

Ela nada fez.

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