terça-feira, 28 de julho de 2009

O conselheiro

A convocação de Diego Tardelli não se justifica. Ele jogou bem em dez partidas no Campeonato Brasileiro. Dez jogos em sete anos de carreira não podem levar alguém à Seleção.

Dizem que Pato e Nilmar desperdiçaram a chance que tiveram. Claro... Robinho tem todas as chances, Robinho finaliza mal e tem todas as chances, Robinho perde a bola, não dá seqüência às jogadas e tem todas as chances. Pato e Nilmar jogam uma partida cada um e não marcam 48 gols: merecem a reserva.

Dunga convocou o Diego errado. A Seleção precisa do da Juventus. Outro injustiçado é Grafite. Campeão e artilheiro na Alemanha, foi preterido. Diz a nada confiável internet que Diego significa conselheiro. Quem sabe Tardelli chama Dunga para uma conversa de pé de ouvido e sussurra: convoque outro, convoque outro, convoque outro.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A ficção científica triunfará

Percorrer três copiadoras/lan houses e constatar que nenhuma abre disquete denota a proximidade do apocalipse. Em breve:

jogaremos o nome da pessoa amada em um software, e este redigirá um poema;

doaremos sangue por cabo USB;

depositaremos conteúdo de concurso público no cérebro por pen drive;

conectar-nos-emos a carregadores de bateria ao dormir.

A ficção científica triunfará, e os futuros literatos escreverão fantasias como pessoas que comiam carne em vez de tomarem pílulas.

domingo, 26 de julho de 2009

Inspirador superado

"Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação."

Narrador-personagem do conto O gato preto, in: POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 49.


Referência nas histórias de mistério e fundador da ficção policial, Edgar Allan Poe teve tanta influência sobre escritores que foi superado por eles. O americano tinha vasta inspiração e imaginação, mas não sabia o que fazer com elas, como na coletânea Histórias extraordinárias.

Viveu quarenta anos, existência breve como a dos poetas boêmios do Romantismo. Não por acaso escreveu dramas cheios de pedidos ao sagrado, de exclamações e de morte. Não chega a ser terror, como Mary Shelley, apesar de o estilo dela aparecer em Poe; trata-se de narrativas góticas, sombrias, que privilegiam cenários escuros, frios e húmidos. Nesse âmbito, Allan Poe renasce em autores como Stephen King.

Por outro lado, não menos macabro, Poe teve virtude criativa ao conceber Auguste Dupin, intelectual francês que faz as vezes de detetive. Sem Dupin não haveria Sherlock Homes ou Hercule Poirot. Entretanto, os méritos param aqui, pois Conan Doyle e Agatha Christie escreveram ficção policial mais envolvente e intrigante, dando mais elementos para o leitor descobrir o assassino e com soluções mais verossímeis.

Recomendo contos de Allan Poe como O barril de Amontillado, O gato preto e O poço e o pêndulo. Em outros textos, prepare-se para pirotecnias no enredo. Não se assuste se alguns deles forem mais apropriados a engenheiros da NASA do que a alguém apenas interessado em uma boa história de suspense.

sábado, 25 de julho de 2009

O que Dilma tem e o PSDB não tem

O vice-presidente da República, José Alencar, lida tão bem com a doença que receberia votos e mais votos nas eleições de 2010. A ministra Dilma Rousseff prefere não explorar a própria enfermidade.

A candidata de Lula não usa maneiras de ganhar simpatia devido à fragilidade imposta pelo linfoma, como aparecer com os parentes e amigos, sorridente, durante o tratamento. A estratégia continua associar-se ao PAC e ao presidente e defender o PMDB.

Além disso um fator silencioso - mas evidente, percebido por Lula - impulsiona a candidatura dela: ser mulher. A novidade na presidência ajudou Barack Obama, o negro. O mesmo efeito pode favorecer Dilma. Roseana Sarney colhia tais frutos em 2002 até ter a candidatura fulminada por adversários.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sobram três

Colegas,

já leram o meu blog? Ainda não?

Se preferirem, leiam também os blogs sugeridos no menu ao lado.

Este post é piada interna. Se não quiser ler aqui piadas internas, comente.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Silogismo

Estudante tem que ser bom em raciocínio lógico, ainda mais quando os pais pressionam para passar em concurso público:

Estudantes que participaram do congresso da UNE causam prejuízos a escolas públicas do DF;

A UNE paga a conta;

A principal fonte de verba da entidade é o governo federal;

O contribuinte abastece os cofres do governo federal;

Logo, o contribuinte paga a irresponsabilidade de estudantes do congresso.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Clássico de mulherzinha

"São muitos os meus defeitos, mas nenhum de compreensão, espero. Quanto a meu temperamento, não respondo por ele. É, segundo creio, um pouco ríspido demais... para a conveniência das pessoas. Não esqueço com facilidade tanto os disparates e vícios dos outros como as ofensas praticadas contra mim."

Mr. Darcy, em AUSTEN, Jane. Orgulho e preconceito. São Paulo: Martin Claret, 2008, p. 57.


Se você concluiu o ensino médio e quer histórias de amor, donzelinhas puras e mancebos poderosos, não leia Crepúsculo, Melancia ou Bridget Jones. Tais leituras não coadunam com a maturidade intelectual. Você só deve lê-las quando consumir o que a literatura mundial há de melhor. O período pós-colégio e pré-li-tudo-o-que-o-mundo-escreveu-de-bom é privativo dos clássicos, dos ensaios, das biografias e dos livros-reportagem.

Isso não impede a degustação de romantismo. Alexandre Dumas, José de Alencar e Victor Hugo estão aí para isso. Quem preferir algo mais próximo de novelas da Globo, pode recorrer à fonte inspiradora delas: Jane Austen.

Orgulho e preconceito se encaixa nos três requisitos do clássico: criatividade (a teledramaturgia da Globo está duzentos anos defasada), a verossimilhança (reconstrução de uma época) e o estilo (maneira de escrever própria). Os personagens, planos, atendem aos leitores preguiçosos; o estilo elegante, formal, atende aos leitores exigentes.

Não se esqueça de que narrativa boa não é só a empolgante, lida em pouco tempo, mas também a digerida devagar, em que o leitor interage com a obra, pensa, e não a engula como fast-food.

domingo, 19 de julho de 2009

Frieza brasiliense

Ele estava sentado em uma cadeira de braço, aguardando atendimento. Não dava atenção aos transeuntes, e vice-versa. Dois rapazes aproximaram-se, um gordo e um magro. O gordo perguntou:

- Você mora aqui?

Em fração de segundo, ele pensou nas possibilidades de escapar. Soltou um doloroso:

- Sim.

Impaciente, o magro antecipou-se ao amigo e perguntou, com voz rouca:

- Sabe onde tem uma farmácia por aqui?

Primeiro veio-lhe a ânsia de corrigi-lo. O verbo ter não se usa no sentido de haver. Porém, encheu-se de elegância para responder a quem minutos depois ele descobriu ser alagoano.

- Não.

- Tô morrendo aqui nessa cidade, que só tem mato, escuridão e nenhuma farmácia! - bufou o rouco.

- Soube de uma farmácia na 403 - interveio o gordo. - É perto?

- De ônibus sim, de pé não - respondeu ele.

- Mas que raio de cidade! - o rouco.

- Onde tem um ponto de ônibus? - o magro.

- Suba nesse sentido. A primeira via que encontrarem, é a L3; a segunda, paralela, é a L2. Lá há uma parada.

- Mas essa #$¨%@$%# é muito longe.

- Obrigado.

- De nada.

- @*&¨%#(*&¨$)@*&¨*&#¨$.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A fraternidade do homem cordial

Na semana de aniversário da tomada da Bastilha, exemplo para as tomadas de poder por parte das massas, comemoremos pelo menos um dos ideais da Revolução Francesa.

Se a liberdade está em baixa, como na Venezuela e em Honduras, e a igualdade é sonho distante, como em países de bandeira verde e amarela da América do Sul, celebremos a fraternidade.

Desde os anos 30 Sérgio Buarque de Holanda nos fala do homem cordial, em Raízes do Brasil, o do tapinha nas costas, do jeitinho brasileiro, da solução dos problemas pela amizade.

O homem cordial não nega favor, pelo contrário. Nada como ter amigos no Detran, na Justiça, no Congresso.

domingo, 12 de julho de 2009

Eles falam demais

O presidente Lula e o atacante Ronaldo têm muito em comum. Ambos simpatizam com o mesmo clube, são populares e estão acima do peso.

Nos últimos meses, ambos também desataram a falar sem pensar no que dizem. Crêem que o sucesso permite-lhes fazer o que quiserem.

As reclamações do jogador quanto a estratégias do clube, a cutucada na torcida do Flamengo e a insinuação de que o próprio Lula intermedeia conversas com empresários a favor do Corinthians arrepiam qualquer assessor de imprensa.

A defesa do político em favor de Sarney, o prestígio dado a Severino Cavalcanti e as declarações indevidas na política ambiental deveriam arrepiar qualquer eleitor.

Mal social

Descobri a causa dos problemas da humanidade: os 10%.

Sempre que me recuso a pagar 10% a mais na conta a feição das pessoas mudam. Elas se entristecem, se deprimem, se zangam.

Contudo, não cedo à pressão social para estimular a especulação. Na relação de compra e venda, o prestador de serviço diz o preço, o cliente paga. Simples.

Basta desconhecer o lucro que o comércio tem no produto, querem extorquir mais?

sábado, 4 de julho de 2009

Dependência americana

"De repente, esquecido o grão, o rosto contorcido, ele correu para pegar uma bacia de metal cheia de cinzas que equilibrara numa parte do muro quebrado. Era só o que restava de um exemplar do Corão, que segundo ele estava em sua família havia gerações.

- Tiranos! Tiranos! - gritou, referindo-se ao Talibã. - Este é o livro de Deus. Matem a gente, se têm de matar, mas não queimem nosso livro santo."

Afegão cuja aldeia o Talibã bombardeou , na matéria de John Burns, publicada em The New York Times, de 27 de outubro de 1997 e reproduzida em LEWIS, Jon (org.). O grande livro do jornalismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, pp. 366-7.


A seleção feita por Jon Lewis ilustra a arrogância da cultura anglo-americana. Ao montar seleção das melhores reportagens da história do jornalismo, o organizador escolheu 55 textos, sendo 54 de jornais americanos ou britânicos (o restante era soviético). E teve a petulância de intitular a obra como O grande livro do jornalismo.

Há imprensa após as fronteiras da língua inglesa. Gabriel García Márquez (Colômbia), José Hamilton Ribeiro (Brasil) são apenas alguns exemplos de profissionais de sucesso, e Le Monde (França) e El País (Espanha) são apenas alguns exemplos de publicações importantes.

Também é duvidosa a qualidade de escolhidos. Foram aprovados trabalhos como o confuso A batalha de Balaclava, de W. H. Russel, e jornalismo de fofoca como O casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier, de D. Edgar. (Mereceu espaço também Hunter S. Thompson, criador do jornalismo gonzo, em que é permitido inclusive inventar trechos da narrativa. Isso, nesta Cova, não é jornalismo). Ficaram de fora autores como Gay Talese, que escreveu uma das referências do jornalismo: Frank Sinatra está resfriado.

Contudo, há matérias imperdíveis pela qualidade da escrita e pela importância temática. As sobre o impeachment de Richard Nixon mostram bastidores da queda do republicano. A de uma jornalista que se passa por coelhinha da Playboy denuncia o tratamento vulgar que as contratadas recebiam. A sobre um espancamento de um negro exemplifica a cultura racista nos EUA.

O livro conta também com clássicos como Charles Dickens e Winston Churchill. A auto-suficiência da cultura de língua inglesa mancha tanto talento.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Correções históricas

O golpe militar em Honduras é oportunidade para a correção de dois dos maiores erros históricos: a culpa da escravidão e a participação americana em golpes semelhantes ao longo do século XX.

O presidente Lula, com interesses eleitorais, assumiu em nome do país a dívida com os negros escravizados. Porém, o débito deve ser pago pelos colonizadores europeus, que demandaram escravos, e pelos negros africanos caçadores de negros, que os ofertaram. A responsabilidade não é dos brasileiros.

Do mesmo modo, o presidente Obama, tão inteligente e bem-intencionado, deveria pedir desculpas em nome dos EUA pelo apoio que o país deu a golpes militares na América Latina em vez de defender a democracia como agora em relação a Honduras.