"De repente, esquecido o grão, o rosto contorcido, ele correu para pegar uma bacia de metal cheia de cinzas que equilibrara numa parte do muro quebrado. Era só o que restava de um exemplar do Corão, que segundo ele estava em sua família havia gerações.
- Tiranos! Tiranos! - gritou, referindo-se ao Talibã. - Este é o livro de Deus. Matem a gente, se têm de matar, mas não queimem nosso livro santo."
Afegão cuja aldeia o Talibã bombardeou , na matéria de John Burns, publicada em The New York Times, de 27 de outubro de 1997 e reproduzida em LEWIS, Jon (org.). O grande livro do jornalismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008, pp. 366-7.
A seleção feita por Jon Lewis ilustra a arrogância da cultura anglo-americana. Ao montar seleção das melhores reportagens da história do jornalismo, o organizador escolheu 55 textos, sendo 54 de jornais americanos ou britânicos (o restante era soviético). E teve a petulância de intitular a obra como O grande livro do jornalismo.
Há imprensa após as fronteiras da língua inglesa. Gabriel García Márquez (Colômbia), José Hamilton Ribeiro (Brasil) são apenas alguns exemplos de profissionais de sucesso, e Le Monde (França) e El País (Espanha) são apenas alguns exemplos de publicações importantes.
Também é duvidosa a qualidade de escolhidos. Foram aprovados trabalhos como o confuso A batalha de Balaclava, de W. H. Russel, e jornalismo de fofoca como O casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier, de D. Edgar. (Mereceu espaço também Hunter S. Thompson, criador do jornalismo gonzo, em que é permitido inclusive inventar trechos da narrativa. Isso, nesta Cova, não é jornalismo). Ficaram de fora autores como Gay Talese, que escreveu uma das referências do jornalismo: Frank Sinatra está resfriado.
Contudo, há matérias imperdíveis pela qualidade da escrita e pela importância temática. As sobre o impeachment de Richard Nixon mostram bastidores da queda do republicano. A de uma jornalista que se passa por coelhinha da Playboy denuncia o tratamento vulgar que as contratadas recebiam. A sobre um espancamento de um negro exemplifica a cultura racista nos EUA.
O livro conta também com clássicos como Charles Dickens e Winston Churchill. A auto-suficiência da cultura de língua inglesa mancha tanto talento.
sábado, 4 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário