O frescor da noite abandonou-os ao entrarem na delegacia. Uma senhora negra, de avental que há muito não era branco, esquentava comida em um fogão de quatro bocas das quais três não funcionavam. O cheiro da comida reaproveitada impregnava-se nas paredes, sem rejunte, nas canetas, sem tinta, e nos funcionários, sem ânimo.
Escoltados por três policiais, sem armas, as quatro testemunhas adentraram a sala do delegado. Ele soprava tanta fumaça quanto a viatura sem manutenção. Usava os tocos dos cigarros como substitutos de pessoas na reconstituição de crimes. Ao perceber a chegada das testemunhas, apressou-se para finalizar o jogo de cartas que tinha na mesa, mas uma jogada sem pensar adiou a vitória contra si mesmo.
– Não liguem para a fumaça – tranquilizou os recém-chegados. – É para dissimular o cheiro da marmita dos presos.
O grupo compunha-se de três mulheres e um homem, duas delas ocuparam as cadeiras disponíveis diante do delegado. Ele colocou os documentos dos quatro em cima das cartas, sem desfazer o jogo, e conferiu as fotos 3x4 com os rostos. O RG da primeira a sentar-se dava-lhe dezoito anos, mas o delegado percebeu adulteração no documento, ela não tinha mais que dezessete. De cabelos oxigenados e seios tímidos, possuía o tronco maior que as pernas. O rosto ossudo ostentava maquiagem prateada nos olhos. A segunda a sentar-se tinha no documento uma foto de quando era criança, rindo como quem tem cócegas. Trinta anos depois o rosto da mulher assumia casmurrice permanente, como se uma cirurgia plástica tivesse imobilizado-lhe a feição. A mulher em pé era tão elegante na foto 3x4 quanto estava na delegacia. Loura natural, tinha a pele bronzeada encoberta por um casaco de pele e por maquiagem francesa. Os brincos dourados chegavam até os ombros. A menina de dezessete anos estava ansiosa; a senhora casmurra, impaciente; a loura natural, indiferente. A única testemunha homem estava incomodada. Tinha 1,60m, cabelo penteado para o lado e dedos inquietos. Vestia jeans e uma camisa preta com desenhos fosforescentes. Delegacia era-lhe sinônimo de encrenca, e o cheiro da marmita dos presos, preferível à fumaça do delegado.
– Tudo bem com vocês? – o delegado puxou assunto. Três deles responderam ao mesmo tempo, cada um à sua maneira.
– Tudo! – a testemunha de dezessete anos respondeu sem pensar.
– Tudo – a testemunha loura natural respondeu sem emoção.
– Tu…do – a testemunha homem respondeu sem convicção.
A testemunha casmurra não respondeu, apenas encarou o delegado como se ele fosse o interrogado.
– Sabem o motivo de estarem aqui?
Outra ruga desconfiada cortou a testa da casmurra; a de dezessete anos olhou o chão; o homem sussurrou:
– Sei não, seu delegado.
– Por causa de um assassinato – os quatro fitaram a loura natural, que proferiu tais palavras.
– Certo, madame – confirmou o delegado, interessado. – Por causa de um assassinato. Contar-lhes-ei parte da história. Espero que me contem a parte que não sei.
A testemunha de dezessete anos respirava com dificuldade. “Contar-lhes-ei”, o que é isso?
– Na semana passada – começou o policial – um advogado sai em seu carro de um motel nos arredores da cidade, conforme imagens da câmera de vigilância externa do estabelecimento. Não há ninguém no banco da frente, mas há no banco detrás. O carro sai do campo de visão da câmera. Horas depois ligação anônima diz à polícia que nas proximidades do motel há um carro parado no meio da rua, com o motorista inerte, há horas. Uma dupla de policiais encontra o veículo e constata o cadáver.
– Como posso ajudar o senhor delegado? – inquiriu de supetão a casmurra.
O delegado concentrou-se na casmurra. Sem tirar os olhos dela, abriu uma gaveta e pegou uma foto que colocou diante dos quatro. De repente, virou-se para a testemunha de dezessete anos e arrematou:
– Conhece esta pessoa?
A garota sentiu as entranhas gelarem com a pergunta inesperada. O homem na foto estava de olhos fechados e boca aberta como se dormisse sentado. A barba, crescida o suficiente para assumir a textura de lixa. A camisa social estava amarrotada, e a gravata, afrouxada. O pescoço estava inchado. Era um homem acima do peso, com a barriga por cima do cinto.
Diante do silêncio espantado da testemunha de dezessete anos, o delegado repetiu: – A senhorita o conhece?
– Eu conheço – a testemunha loura natural interrompeu de novo.
– Mais alguém?
– Eu… – manifestou-se a testemunha homem. – Sou eu quem o atende no motel. Os clientes antigos têm tratamento diferente. Só que eles não sabem que há um funcionário só pra eles nem sabem que na hora de pagar dá pra ver a cara deles num olho mágico disfarçado.
– De onde a senhora o conhece?
– É meu cliente – respondeu a loura natural. – Há muitos anos. Sou a dona do motel de onde ele saiu.
– Por isso vocês estão aqui – divagou o delegado.
– E por que eu estou aqui? – interrogou a testemunha casmurra.
– Porque na noite da morte – esclareceu o delegado –, no extrato bancário da vítima, consta o pagamento de R$ 34,50 para a AS Empreendimentos, valor igual à metade da pernoite no motel da empresária aqui presente – ele apontou a loura natural. – O horário do pagamento foi às 23h48. Analisando três dos principais bancos da cidade, com autorização judicial, encontramos os mesmos dados na conta bancária da senhora. R$ 34,50 à AS Empreendimentos, só que às 23h50. Que negócios a senhora fazia com uma empresa de empreendimentos a esta hora?
– O que o senhor quer insinuar? – contra-atacou a casmurra.
– Motéis registram nos pagamentos a cartão nomes fictícios de empresas para não denotar que o cliente frequentou o estabelecimento. Quero insinuar que a senhora esteve neste motel com o homem da foto e que pagou metade da conta. Estou errado?
A casmurra enfureceu-se, esperou alguns segundos para acalmar-se e respondeu:
– Não.
O delegado encostou-se na cadeira, relaxou os músculos e suspirou. – Falta explicar a presença da senhorita – referiu-se à testemunha de dezessete anos.
– Sei de nada não, doutor delegado.
– Os policiais responsáveis pela ronda na área onde fica o motel disseram que a senhorita trabalha ali, como acompanhante, é verdade?
– É como dá pra ganhar a vida, doutor delegado.
– Depois você vai me contar quem a obriga a se prostituir. Prostituição de menores é crime.
– Tenho dezoito anos, doutor delegado. Tá escrito aí na minha identidade.
– Algum de vocês sabe algo que possa esclarecer o caso? – o policial elevou o tom de voz.
– Sim – disse a casmurra. – Sei que não tenho nada a ver com isso e que o senhor pode me dispensar – fez uma pausa. – Fui pra cama com o morto – ela estranhou a própria fala e emendou –, que estava vivo. Conhecemo-nos naquela noite, numa festa. Fomos ao motel cada um no seu carro. Rachamos a conta e despedimo-nos. Aposto que a câmera de vigilância mostra a minha saída.
– Mostra – concordou o delegado. – Um carro igual ao seu e com a mesma placa saiu antes do advogado. Verifiquei os dados no Departamento de Trânsito – virou-se para a testemunha de dezessete anos. – A senhorita nada viu?
– Vi não, doutor delegado. Tava trabalhando.
O policial pensou, pensou e chamou um subordinado.
– Leve o documento desta senhorita para perícia. A idade está adulterada – a testemunha de dezessete anos fez menção de protestar, mas não teve coragem. – Os demais estão dispensados.
Minutos após todos saírem, o subordinado voltou.
– Alguma conclusão?
– Descobri o assassino.
– Quem?
– Pense: apenas um homem teria força para estrangular alguém forte, nem que seja pelo acúmulo de gordura, como a vítima. Qual foi o último homem em contato com o morto? Difícil será provar. Acho que será mais fácil fazer o criminoso confessar – o subordinado quis falar, mas o delegado antecipou-se à pergunta que não veio. – A garota do documento adulterado não cometeu crime, apenas é vítima de um cafetão qualquer; chamei-a para me certificar de que ela nada viu. A testemunha rabugenta não tem culpa, apenas transou com o advogado e foi embora. Quem tem acesso à suíte da vítima para entrar no carro dela e sair do motel pronto para matar? E quem teria inteligência e frieza para arquitetar plano como esse?
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